Roger Schmidt falou do Benfica e do futebol português no Thinking Football Summit 2022

Roger Schmidt foi um dos convidados da Thinking Football Summit 2022 que está a decorrer no Porto. O técnico alemão, grande responsável pela caminhada invicta do Benfica nesta época 2022/23, falou do futebol português, da aposta na formação e da cultura portuguesa.

Primeiras impressões do futebol português:

«Já tinha uma opinião porque joguei algumas vezes contra equipas portuguesas na Liga dos Campeões e na Liga Europa e foram sempre jogos complicados. Tenho uma mente aberta e quando vou trabalhar para um país diferente, interesso-me pela cultura, em geral, e pela cultura futebolística desse país. Essa é uma das razões que me leva a gostar de trabalhar no estrangeiro. Primeiro quis obter informações sobre a minha equipa, os meus jogadores, da mentalidade deles e forma de trabalhar. Depois, no início da época, fiquei também a conhecer outras equipas. Analisamos sempre os nossos adversários, jogo após jogo, e a forma de jogar torna-se mais clara. Após cinco meses a minha primeira impressão é que este é um campeonato difícil comprando com outros onde já trabalhei. Preparar cada jogo é um desafio em si, mas por vezes também nos surpreendemos durante o jogo porque a abordagem da equipa é diferente daquela que tínhamos preparado. Também percebi que, a nível defensivo, contra equipas que não estão ao nível do Benfica, do FC Porto ou do Sporting, estão ainda assim bem organizadas defensivamente e são equipas aguerridas.»

Diferenças entre futebol português e outros campeonatos:

«É difícil comprar campeonatos e também equipas. Acho que as equipas que defrontamos em Portugal acreditam sempre que têm a possibilidade de ganhar. Não ficam contentes só porque perdem por poucos golos. Depois tudo depende da forma como decorre o jogo. Se marcas primeiro fica mais fácil, caso contrário torna-se mais complicado porque as equipas estão bem organizadas defensivamente, muito recuadas junto à área. Noutros países, quando defrontas equipas mais abaixo na classificação, sente-se verdadeiramente que elas não acreditam que podem vencer. Acho que essa é a principal diferença.»

Oportunidades aos jovens:

«É uma filosofia do Benfica desenvolver jovens para jogar na primeira equipa e, se forem bons o suficiente, vender e ter dinheiro para manter a equipa competitiva nas competições europeias. Acho que é uma boa filosofia porque para todos os clubes é um valor acrescentado ter jogadores da formação na equipa principal. É uma forma de identificação para o clube e também para os adeptos. No Benfica, todos querem ver os jovens da formação na equipa principal. Pelo menos alguns, claro que não podem ser todos. Se queremos chegar a fases mais avançadas da Liga dos Campeões não podemos jogar apenas com atletas da formação. Seria difícil. Mas ter alguns é algo de positivo que também me agrada. Acho que esse devia ser um objetivo de todos os clubes. Alguns não o conseguem fazer. Mas para o Benfica, como outros clubes em Portugal e na Europa, é um sinal forte da cultura do clube. Essa é uma das qualidades que também me levou a querer vir para trabalhar com estes jovens jogadores.»

Crescimento da Liga portuguesa:

«Chegar ao top-4 ou top-5? Acho que Portugal é um país fantástico, mas tem uma dimensão pequena, com 10 milhões de habitantes e o número de jovens jogadores é mais pequeno em relação a outros países. Na Alemanha temos 70 milhões de habitantes, por exemplo. Acho que Portugal ocupa neste momento uma boa posição no futebol europeu. E acho que continua a evoluir. Este ano estivemos perto de ter três equipas portuguesas na fase a eliminar da Liga dos Campeões. Isto quando vemos equipas como o Barcelona a não conseguir passar pelo segundo ano consecutivo. O que está a acontecer em Portugal é positivo, mas há sempre espaço para melhorar. A competitividade do campeonato português ajuda a melhorar o desempenho nas competições europeias. Se as equipas grandes continuarem a competir a nível internacional – o SC Braga também está a fazer um bom trabalho – na minha opinião, vai ser sempre difícil defrontar equipas portuguesas.»

Cultura:

«Sinto-me muito bem recebido, a cultura portuguesa é muito amável, sente-se uma energia positiva no País, especialmente em Lisboa, onde passo mais tempo. Vir trabalhar para Portugal foi uma das melhores decisões na minha vida.»

Auto-análise:

«No dia a dia, como pessoa sou tal como sou enquanto treinador. Não tento ser diferente, é importante no futebol seres igual a ti próprio. Quando tentas desempenhar um papel fica mais complicado. Tento desfrutar o futebol tal como desfrutava enquanto jogador. E quero divertir-me. Sei que, para isso, é preciso ter sucesso e no Benfica implica conquistar títulos. Mas gosto de estar todos os dias no campo com os jogadores, com a equipa técnica e trabalhar para fazer um bom jogo no fim de semana, que deixe os adeptos orgulhosos. Sou assim, nunca pretendo ser mais que isso. Tento guiar cada jogador, mas por detrás de cada jogador há também um ser humano. Tento ver essa parte. Os jogadores devem ter o melhor rendimento e, para isso, é preciso que se sintam felizes e bem dispostos.»

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