O percurso de um “Pequeno Genial” chamado Chalana e a sua marca no futebol

Fernando Chalana é um dos gigantes da história do Sport Lisboa e Benfica. Ao todo foram 13 temporadas de águia ao peito e mais de uma dezena de troféus conquistados ao serviço do Clube. O Pequeno Genial deixou-nos aos 63 anos, mas perdurará para sempre na memória dos Benfiquistas e dos amantes do futebol.

Chalana partiu, deixou-nos cedo demais. Se Eusébio era o Rei e Coluna o Monstro Sagrado, Fernando Chalana era o Pequeno Genial. Para muitos desapareceu, nesta quarta-feira, 10 de agosto, a primeira definição de magia no futebol. Quantos se apaixonaram pelo pequeno extremo, enquanto este bailava no relvado do antigo Estádio da Luz? Quantos se renderam ao futebol encantado do mágico jogador? Quantos adversários caíram a seus pés, sem que este tocasse sequer na bola? Multidões chamaram pelo seu nome, pelo nome de Chalana, que com um sorriso envergonhado cativou pelo futebol e pela simplicidade.

Fernando Chalana

De Fernando Chalana, o jogador, podemos dizer que alcançou a dimensão eterna. Só assim se explica que a 10 de fevereiro de 2019, data do seu sexagésimo aniversário, e numa homenagem do Clube, 54 810 espectadores tenham cantado no Estádio da Luz o seu nome a uma só voz. Muitos não o viram jogar, outros assistiram em pequenos vídeos do YouTube aos momentos de génio, outros tiveram de facto essa sorte. E foram esses que garantiram a grandiosidade de Chalana, que o colocaram no “Olimpo dos Deuses da Bola”. De pais para filhos, a magia deu lugar à lenda, que um dia dará lugar ao mito.

“Lembras-te daquela vez que o Chalana sentou o ‘fulano’ no chão e marcou golo?”, perguntará alguém. A resposta “eu não me lembro, mas o meu pai contou-me” é das frases mais místicas do futebol e de há uns anos para cá o Pequeno Genial faz parte desse misticismo.

Fernando Chalana

E como se fez Chalana um grande jogador de futebol? “Eu só olhava para a bola, só corria com a bola, jogava com a bola, levava a bola para sala de aulas”, revelou em entrevista reproduzida na BTV. A bola ia para todo lado, estava sempre presente.

Nascido (e criado) no Barreiro a 10 de fevereiro de 1959, o pequeno Fernando ingressou no Barreirense aos 14 anos, onde depressa agarrou um lugar, imagine-se, na equipa principal. A magia cedo chegou aos ouvidos do Benfica e aos olhos de Ângelo Martins, que o observou. O Presidente Borges Coutinho recrutou-o.

Chegado ao Benfica com 15 anos, teve uma ascensão meteórica. Aos 17, a 7 de março de 1976, estreava-se pela primeira equipa, lançado por Mário Wilson, substituindo o capitão Toni ao intervalo, já o Benfica vencia por 3-0 o Farense, com dois golos de Jordão e um de Nené. Nesse dia tornou-se o jogador mais jovem de sempre a atuar na 1.ª Divisão portuguesa. Um recorde que se manteve por duas décadas no futebol português.

Fernando Chalana

Encantados com as suas exibições, os franceses apelidaram-no “Chalanix”, tais eram as semelhanças com o herói gaulês de BD Astérix

No mesmo ano (1976) sagrou-se campeão nacional pelos Seniores e pelos Juniores e jogou, imagine-se, por três seleções nacionais de Portugal (Seniores, Esperanças e Juniores).

Ficou ali escrito, nesse momento, que tinha nascido uma das maiores estrelas do futebol nacional e do Benfica.

No Glorioso, Chalana jogou 13 temporadas (a primeira delas como júnior), vencendo seis Campeonatos Nacionais, duas Taças de Portugal, duas Supertaças e três Taças de Honra entre os períodos de 1974-1984 e 1987-1990.

Jogou ainda a final a duas mãos da Taça UEFA, em 1982/83, contra o Anderlecht, e ajudou, já na fase final da carreira, o Benfica a chegar a duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus, em 1988 e 1990.

Pelo meio, uma passagem pelos franceses do Bordéusque, fascinados com as atuações de Chalana no Campeonato da Europa de 1984, o contrataram. Em França, esteve três temporadas, onde não foi feliz.

Fernando Chalana

As lesões, que já o tinham apoquentado por duas vezes no Benfica, voltaram e nunca mais lhe deram tréguas. Partiu para França em 1984, regressou a Portugal e ao Benfica em 1987.  No Bordéus venceu 1 Campeonato Nacional, 1 Supertaça e 2 Taças de França.

Os franceses chamavam-lhe “Chalanix”, tantas eram as semelhanças com a personagem heroica de banda desenhada (de Uderzo e Goscinny) Astérix. Mas ao contrário do pequeno gaulês, o nosso pequeno “Grande” Chalana não precisava de uma poção mágica para vencer os “romanos”. A Chalana bastava-lhe uma bola, de cautchú, de borracha ou de trapos.

Foi assim que obrigou as “legiões” adversárias a renderem-se a seus pés, na Luz, no Jamor, em França e em outros tantos campos de “batalha”. Foi assim, com uma bola e com toda a magia que possuía.

Fernando Chalana

Ao todo, no Benfica, jogou 410 jogos, marcando 64 golos. Não se quis despedir do futebol no Benfica e ainda esteve ao serviço do Belenenses e do Estrela da Amadora, uma temporada em cada clube. Aposentou-se no final da época de 1992/93. Na Seleção Nacional, onde também chegou aos 17 anos (estreia com a Dinamarca a 17 de novembro de 1976), jogou 29 vezes e marcou por duas vezes.

Quanto ao número de adeptos que conquistou é simplesmente incomensurável.

Fernando Chalana foi para muitos, a seguir a Eusébio, o melhor jogador que pisou os relvados da Catedral. É o melhor elogio que se pode fazer ao Pequeno Genial, que no momento mais difícil da sua vida encontrou refúgio em casa, no Sport Lisboa e Benfica.

Fernando Chalana

No Benfica, como jogador, conquistou 6 Campeonatos Nacionais, 2 Taças de Portugal, 2 Supertaça e 3 Taças de Honra

Foi treinador das camadas jovens e não negou ajuda quando o Clube precisou de si, chegando a ser treinador interino e de transição da equipa principal. Na carreira enquanto técnico orientou ainda o Oriental.

Fernando Albino Sousa Chalana faleceu nesta quarta-feira, 10 de agosto de 2022, aos 63 anos, e juntou-se às lendas gloriosas do Benfica. Tem lá lugar, bem perto do sorriso de menino de Eusébio e o olhar misterioso de Mário Coluna, ali entre outros tantos que a nós envaidece.

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