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O relato de Kandaurov desde diretor de escola do Benfica em Kharkiv a refugiado em Portugal

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A guerra sem quartel travada pela Rússia na Ucrânia já provocou milhares de mortos e redundou num drama humanitário no qual se contabilizam dez milhões de deslocados e mais de três milhões de refugiados que escaparam do país. Preservando as próprias vidas, mas deixando tudo o resto para trás.

Este é o relato de um deles. Contado por rosto familiar ao futebol português e ao Benfica, Serhiy Kandaurov, e publicado no dia em que faz precisamente um mês que a vida do antigo médio do clube da Luz, hoje com 49 anos, da mulher, Natalya, 39 anos, e dos filhos Uliana e Grischa, com 6 e 11 anos, respetivamente, começou a ser obliterada numa das cidades cujo nome entrou no nosso dia-a-dia: Kharkiv. 

A vida de Kandaurov enquanto diretor desportivo da Benfica Soccer School de Kharkiv começou a ser apagada como giz numa ardósia na noite de 23 de fevereiro para a madrugada do dia seguinte. Depois de ter estado num aniversário familiar regressou a casa e acordou às cinco da manhã do dia 24 com o barulho de explosões. Ouviu pela primeira vez as sirenes e seguiram-se seis dias ao som dessa arrepiante banda sonora num vai-e-vem constante entre o sexto andar do apartamento onde vivia e a garagem subterrânea que então serviu de bunker enquanto a cidade do nordeste da Ucrânia, que dista apenas 30 quilómetros da Rússia, era bombardeada.

«Andámos assim uma semana, ora a dormir em casa, ora na garagem», recorda.

Como tantos outros compatriotas, Kandaurov ainda pensou que tudo seria passageiro e não equacionou logo deixar a cidade, muito menos o país. Ao 6.º dia tudo mudou.

«Saí de casa, do prédio, e fui à rua. Vi dois tanques russos a passar e a abrirem fogo contra a sede… como se diz o KGB da Ucrânia…? SBU [serviços secretos]. Tive medo e foi quando decidi ir embora», conta.

Pegou na mulher e nos filhos, cada um com direito a pequena mala, e meteu-se no carro compacto que se transformou em segunda casa por dez dias, tanto o tempo que nele passou com a família. Foram 48 horas só para conseguir atravessar a fronteira e deixar a Ucrânia, com o coração nas mãos.

«O depósito do carro só dava para 500 quilómetros, a fronteira [com a Polónia] estava a 1200. Podia ter ficado sem gasolina, mas houve pessoas a indicar bombas [pelo caminho]. Só dava para 20 litros e tínhamos de pôr em todas as bombas, parar em todas», explica.

O abastecimento não era o maior dos problemas, com as notícias de que o exército russo disparava sobre carros com civis. «No início tive medo de sair, só havia uma estrada para deixar Kharkiv. Mas havia muitos grupos de ajuda que diziam as estradas por onde irmos. Víamos os telemóveis [grupos de Whatsapp] e o Google Maps», confessa.

Fez-se à estrada e foi direito à fronteira com a Moldávia, a pouco mais de 50 quilómetros. Depois de quatro horas na fila não teve sorte ao mostrar o passaporte português, já sabendo que com o ucraniano hipóteses nenhumas teria.

«Tu não podes passar», ouviu de guarda fronteiriço, fazendo cumprir a lei marcial. Seguiu-se a fronteira com a Roménia, a mais de 700 quilómetros. Mas as colunas intermináveis de carros em fuga fizeram-no desistir desse plano B já no destino e passou ao C, saído de mais um golpe de improviso: a fronteira com a Hungria. Que acabou por conseguir cruzar, graças ao passaporte luso.

Por essa altura Kandaurov já tinha na cabeça que Portugal seria o destino, nenhum outro lhe ocorrera. E voltou a fazer-se à estrada, para, ao longo de 8 dias, percorrer o que faltava dos 4600 quilómetros entre Kharkiv e Lisboa, com muitas paragens, dormidas e auxiliado pelas autoridades lusas.

«A minha filha às tantas chorava, gritava a dizer ‘já não quero o carro, já não quero o carro’», recorda Kandaurov, já no porto seguro que o acolheu no nosso país, com a mão em cima do fiel amigo de matrícula ucraniana, o carro que deu à mulher e que trouxe a família sã e salva de volta ao país onde até já tinha imaginado terminar o resto dos dias. Esse futuro escreveu-se mais cedo, por linhas tortas, mas agora há todo um caminho a percorrer.

As amizades cultivadas ao longo dos anos que jogou no Benfica, de 1997 a 2001, proporcionam-lhe por ora um abrigo. Fugido da guerra, enfrenta agora a batalha de ter de recomeçar a vida do zero, de fazer a família criar raízes em Portugal, porque não tenciona voltar a uma Ucrânia com o futuro comprometido.

Deixou tudo para trás em Kharkiv e já não tem para onde voltar com a onda de destruição que varreu a cidade onde cresceu e se fez futebolista. Obrigado a virar de página doloroso, Serhiy Kandaurov, antigo jogador do Benfica, trouxe a família em segurança até Portugal, onde tenciona reconstruir o que a guerra destruiu. Mas até cá chegar por muito teve de passar.

– Onde estavas no dia 23 de fevereiro, véspera da invasão da Rússia à Ucrânia? O que fizeste nesse dia?

– [Sorriso] A primeira coisa que quero dizer é que o meu português não é muito bom, desculpem. Não vão perceber muito, mas vou explicar como sei. No dia 23 estive no aniversário do irmão da minha esposa, ficamos lá [na festa] e depois voltámos [a casa] pela uma, duas da manhã. Fomos para a cama. Por volta das cinco horas comecei a ouvir… boom, boom, boom, boom, boom – que se passa? Não sabia ainda. Acordámos, os meus filhos também, vimos logo as notícias – pensámos que tinha de ser alguma coisa da Rússia… Logo a seguir começámos a ouvir as sirenes. Tenho um apartamento num sexto andar, tivemos medo de ir pelo elevador e descemos logo para o parque subterrâneo, com malas, dinheiro e os passaportes. Muita gente do nosso prédio já estava lá, perguntava ‘o que se passa? o que se passa?’ Ainda não sabiam de nada, estavam todos ao telemóvel quando viram que a Rússia estava a atacar a Ucrânia, guerra, tudo… Putin também falou [nessa madrugada, a justificar a invasão]. Depois, passámos seis dias assim, entre o apartamento e a garagem, com as crianças. Felizmente ainda tenho boas pernas. Os meus filhos estavam sempre a dizer que queriam ir pelo elevador, mas era muito perigoso. Foram seis dias nisto, sirenes e explosões em Kharkiv, a minha cidade.

– Como é que se consegue tranquilizar os filhos numa situação que nos deixa também intranquilos?

– A minha filha é mais pequena, tem seis anos, começava sempre a chorar [ao ouvir as sirenes], dizia ‘não quero ir para lá [para a garagem/bunker]’, perguntava ‘quanto tempo vamos ficar?’. O meu filho [11 anos], a jogar ao telemóvel… para ele era algo bom [distraiu-o], era normal… Mas não era bom. E não era normal esta situação. A minha esposa, também sempre a chorar, quis que nós fossemos embora no primeiro dia, no segundo dia, mas eu dizia que não, que talvez em um, dois ou três dias ia parar. Mas não parou. Ela queria sair, eu queria esperar. Tinha medo porque via nas notícias que os russos disparavam sobre carros que passavam nas estradas. Por fim, ao sexto dia, quando vi dois tanques [russos] na nossa rua… disse para irmos embora de Kharkiv. Já estava quase tudo destruído na minha cidade…

– Ainda antes da invasão falou-se durante semanas dessa possibilidade. Nunca acreditaste que podia acontecer?

– Claro que não acreditei. Falávamos muito sobre isso e nunca pensámos que a Rússia podia atacar Kharkiv. Kharkiv é a mais russa das cidades ucranianas, sempre teve muitos russos. Sou ucraniano e tenho família na Rússia, mas sou ucraniano, penso como ucraniano, foi o país que me deu tudo, a minha família. E digo slavia ukraini [glória à Ucrânia]. Mas o que fizeram ao meu país, à minha cidade… É incrível…

– Nasceste na antiga União Soviética, depois escolheste a Ucrânia. Não é uma guerra entre povos irmãos?

– Irmãos? Quais irmãos…? Nós todos na Ucrânia temos família na Rússia, muitos na Rússia têm família na Ucrânia… o que este homem [Putin] fez agora… Nunca pensei que isto pudesse acontecer assim, destruir todas as cidades, casas… Eu também já não tenho casa, o meu apartamento… não tenho para onde voltar.

– Foi destruída?

– Não foi toda, mas os vidros… está tudo estragado já.

– É quando vês os tanques que decides ter chegado a hora de ir embora?

– Sim. Quando vi os tanques pensei que iam entrar no centro da cidade e começar a destruir Kharkiv. De início pensei que nunca iriam atacar o centro da cidade, mas quando começaram a cair bombas no centro e vi os tanques a entrar pensei ‘já chega, vou levar esposa e filhos e vou embora rápido’.  Não sabia para onde, só sabia que ia sair de Kharkiv. Estávamos com medo e não sabia o que iria ser.

– Depois foi início de grande aventura para rumar a uma fronteira e tentaste várias. Como foi?

– A primeira coisa que pensámos foi ir para Lviv, sair por oeste, depois também pensei que podia não conseguir passar, sabia que os homens não podiam passar [por causa da lei marcial], mas como tenho passaporte português tentei. E passei na fronteira pela Hungria.

– Quantas horas levaram no vosso pequeno carro desde que saíram de Kharkiv até atravessarem a fronteira com a Hungria para se sentirem em segurança?

– Foram 48 horas, mais ou menos. Depois de atravessarmos a fronteira sentimos… já não foi aquele boom, boom, boom a cada duas ou três horas, sempre. Aquilo fica na cabeça, mas quando saímos [da Ucrânia] não ouvimos nada e ficámos tranquilos. Mas sabíamos pelas notícias que em Kharkiv continuavam a atacar, a atacar, a atacar…

– Respiraste de alívio mal atravessaste a fronteira?

– Sim, claro, quando passámos na fronteira. Respirámos… Mas sabíamos que esperava por nós uma nova vida, não sabíamos qual. Só podia vir para Portugal, porque joguei aqui, tenho muitos amigos, conheço aqui muitas pessoas.

– Trabalhando nas escolas do Benfica na Ucrânia e tendo passaporte português só ficavas com Portugal como destino… Já pensavas em vir para cá morar?

– Sim. Tinha escola [de futebol] própria, mas quando o Benfica chegou a Kharkiv com a academia deixei a escola, muitos dos meus alunos também foram comigo para o Benfica e foram dois anos e meio a trabalhar com eles em Kharkiv. O meu sonho, já falava com a minha esposa, era viver o fim dos meus anos em Portugal. Gosto do país, das pessoas, deste sol, de tudo. E Deus deu-me esta situação má para me trazer para Portugal. Agora vamos ver, vamos ficar com uma vida nova, vamos ver como vai ser…

– Foram dez dias de carro até chegares a Lisboa. Qual o primeiro sítio onde foste?

– Fui ter com o meu amigo Rui Rodrigues, falei com ele e pedi-lhe ajuda para ver se tinha algum apartamento onde pudesse ficar alguns dias. Disse-me que podia ir para a quinta do irmão dele. Mas a cidade que conheço bem é Cascais, foram três anos e meio a viver lá, queria ir lá e era a primeira coisa que queria fazer, então fui. Também para mostrar às crianças. Fomos almoçar, depois fomos ver Cascais, queria ir mostrar onde o pai viveu, o estádio onde jogou e tudo. Mas eles ainda não entendem estas coisas.

– Falaste logo com a Fundação Benfica também para o apoio à integração dos teus filhos?

– Sim. Falámos sobre isso, como o Benfica me podia ajudar. Quero também falar com o Rui Costa, o presidente, dizer obrigado pelo apoio da Fundação às minhas crianças, quero falar com ele, mas ainda não falei. A primeira coisa é falar com ele, Benfica é o clube do meu coração e a primeira coisa é falar primeiro com o Benfica para trabalho, para ver se me ajuda. Se não, vamos ver.

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