Vanessa Fernandes e a depressão competitiva: “Só queria que aquilo acabasse”

Vanessa Fernandes, medalha de prata em triatlo nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008, abriu o coração e contou a história dela, depois de vários anos quase desaparecida. O depoimento da antiga atleta olímpica está disponível na curta-metragem 72 Horas Antes, o segundo capítulo, depois de história semelhante com Emanuel Silva e Fernando Pimenta, medalhas de prata em Londres-2012, na canoagem. Sem filtros Vanessa Fernandes conta o que foram as 72 horas antes da prova e como foi a vida no Centro de Alto Rendimento, em Rio Maior, depois de ali chegar de Perosinho. Depressão, ansiedade, bulimia, acima de tudo, uma tremenda infelicidade de uma atleta que entrou em ‘burnout’ com excesso de treino e que coloca a saúde mental de novo na agenda mediática.

«Tinha episódios bulímicos constantes. Comia tudo compulsivamente e vomitava a seguir. Tinha momentos em que ia para o meu quarto, pensava naquilo e até me dava euforia», conta Vanessa Fernandes, no documentário. A atleta deixou os estudos aos 16 anos, sem completar o 10.º ano. Chumbou por faltas. Na curta-metragem conta-se que os treinos começavam às 6 e terminavam às 20 horas. «Ia toda partida para as aulas, não tinha paciência para aquilo», desabafa. Nos fins de semana em casa dos pais, Vanessa Fernandes não podia comer a comida da mãe e passava grande parte do tempo numa tenda de pressão e de oxigénio.

A depressão a crescer e a exigência cada vez maior levaram Vanessa Fernandes a quase desejar que não ganhasse a medalha de ouro. A triatleta lembrou alguns dos sentimentos que lhe passaram pela cabeça naquela manhã (noite em Portugal). «Entrei num espetáculo. Mergulhei, ainda me lembro do cheiro dentro de água, dentro da guerra, da arena, e, lá dentro, é lutar até ao fim. Entras no modo perfeito de uma máquina de competição. Na transição para a corrida, nem me chateei ir para a frente, quase quis uma desculpa. Eu ia buscar uma medalha, porque eu quase já tinha excluído a hipótese de ganhar», vincou. A australiana Emma Snowsill ficou com o ouro. Os pensamentos passaram a ser extremos: «Pensava: ‘Se for aos Jogos, passar a meta e buscar a medalha e morrer a seguir, está tudo bem’», disse Vanessa Fernandes, no documentário da autoria de Lígia Gonçalves, realizado por Miguel C. Saraiva e distribuído pela empresa de apostas Betclic. Durante a prova, os gritos de incentivo pediam-lhe que sofresse, que desse mais: «Só ouvia ‘sofrer, sofrer, sofrer mais’. Estava ali a dar o litro, ainda queriam que desse mais? Só queria que aquilo acabasse. Era como se fosse escrava do meu próprio sucesso.»

Medalha de prata assegurada e campeã do mundo, no ano anterior, Vanessa Fernandes sentiu que chegara ao limite depois de Pequim-2008 e desapareceu. «Estava com depressão, chegou a um ponto em que tive de pedir ajuda, caso contrário ia destruir-me. Fui internada. Foi um grande caminho para acordar para o meu desenvolvimento pessoal e, depois, veio vida, paz, harmonia, veio a realidade», revelou a atleta.

Após o visionamento da curta-metragem, no centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa, houve uma conversa sobre saúde mental no desporto, com as participações de Célio Dias, antigo judoca olímpico, Carla Couto, ex-futebolista e atualmente no Sindicato dos Jogadores, do psicólogo Miguel Lucas e de Pedro Almeida, também psicólogo e ex-coordenador do Departamento de Psicologia Desportiva do Benfica. A conversa foi moderada pela jornalista Sara Pinto.

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