Jorge Jesus foi um dos oradores na conferência sobre “A gestão humanizada do futebol”

Jorge Jesus foi um dos palestrantes na conferência sobre “A gestão humanizada do futebol”, que decorreu no Estádio da Luz

Jorge Jesus, treinador do Benfica, admitiu esta terça-feira que parte do sucesso que teve no comando técnico do Flamengo se deveu à paixão que desde jovem tem pelo futebol brasileiro e elogiou os jogadores “canarinhos”.

Numa conferência sobre “A gestão humanizada do futebol”, Jorge Jesus recordou a sua passagem pelo comando técnico do Flamengo, onde esteve em 2019 e 2020 e onde conquistou o Brasileirão e Taça dos Libertadores, assumindo que parte do sucesso que teve em terras de Vera Cruz começou quando ainda era jovem.

“Antes de chegar ao Flamengo já era um apaixonado pelo futebol brasileiro. Já na altura era apaixonado pelas seleções brasileiras, pelos jogadores brasileiros e Pelé, o exemplo máximo do jogador brasileiro”, disse Jesus.

Outro aspeto que Jorge Jesus considerou determinante para as conquistas no Flamengo foi o talento dos jogadores que teve no seu grupo.

“O jogador brasileiro é talentoso, gosta de aprender e trabalha com alegria. Aprendi isso com eles. Eles gostam de aprender para além do que é o conhecimento deles sobre o treino e depois demonstram gratidão por serem ensinados”, contou o treinador português, que revelou que o carinho que lhe foi dado foi algo “inédito” na sua carreira.

“Não estava habituado à forma como eles me trataram. Nunca tinha sentido algo assim, como senti naqueles 14 meses no Brasil”, relembrou Jorge Jesus.

Sobre o Benfica, que não foi tema nesta conferência, Jorge Jesus deixou escapar que só aceitou ser palestrante porque a sessão se realizou na sua casa, o Estádio da Luz, onde espera ter muitas conquistas esta época. “Aceitei falar nesta conferência porque estou na minha casa, o Estádio da Luz. Não falo em público sobre futebol e hoje abro uma exceção porque estou em casa. Estamos a ouvir a águia e este ano espero que ela voe bem alto e muitas vezes”, desejou o técnico do Benfica, que atualmente lidera a Liga Bwin.

Ao perceber a presença de Artur Moraes, agora dirigente do Alverca e no passado jogador treinado por Jorge Jesus, o técnico voltou a falar do Benfica: “Hoje, felizmente, temos um presidente que já foi jogador, este é o caminho”, disse, numa clara referência a Rui Costa, eleito presidente do Benfica a 9 de outubro.

O Estádio da Luz, em Lisboa, recebe hoje e quarta-feira a primeira edição do Global Football Management, em dois dias dedicados ao “Futuro da gestão humanizada do Futebol”, com a participação de vários oradores dedicados a discutir os desafios atuais e futuro da modalidade, assim como as mudanças regulamentares esperadas.

A faculdade do futebol: “Para além de saber de futebol temos de conhecer o que é o futebol. O futebol não é só táticas e estratégia, tem muito a ver com arte e criatividade. Um jogador não se fabrica, nasce, cria-se. O treinador é a mesma coisa. O treinador vai evoluindo ao longo dos anos, mas com a criatividade dele. É isso que ele faz. O treinador não se forma na faculdade. Durante 40 anos de treinador e jogador… Essa é a minha faculdade.”

O peso do talento: “Se o jogador não tiver talento, esquece. Mas, quem faz o golo é a equipa. Tirando exceções. Há jogadores que não precisam de equipa: Pelé, Messi, Ronaldo, Maradona… Os outros precisam da equipa para serem os goleadores.”

A pressão: “Não entendo muito quando ouço desportistas a dizer que sentem muita pressão. Sem prazer e paixão, quem manda é a pressão. Falemos de Ronaldo. Ele tem prazer em jogar, para ele não há pressão, por isso vai jogar com 40 anos se Deus lhe der saúde. Para ele primeiro há prazer, não há pressão, quem não tem prazer e paixão, acaba por ver a pressão vingar.”

Ambição e copiar: “Quem é o treinador que não tem ambição? Todos têm ambição. Mas, e traduzir isso no trabalho? Aqui está a diferença entre os treinadores. O que faz a diferença é a tua criatividade. Há livros sobre como fazer treinos, mas não diz como operacionalizar as tuas ideias. Posso dizer que no mundo há seis, sete, oito, nove treinadores que são criadores. Os outros andam a copiar.”

Júlio César: “O Júlio [César] trabalhou comigo aqui no Benfica. Já que estamos a falar do futebol brasileiro, queria confidenciar um episódio meu e do Júlio. O Júlio, antes de eu chegar ao Brasil, como vocês sabem, ele foi jogador do Flamengo, os adeptos do Flamengo têm uma admiração muito grande por ele, e ele abriu-me o caminho, porque eu sei que ele falou com os três capitães do Flamengo antes de eu chegar ao Brasil, explicando-lhes como eu era além do treino dentro do campo. Se eles não me “aceitassem”, não percebessem que a minha forma de liderar o grupo é com paixão, entusiasmo e às vezes um bocadinho exagerado naquilo que eu acho que é fundamental, podia-se entrar em choque de ideias. Quando eu cheguei, todos os jogadores já sabiam, já não se admiraram se eu dava ou não dava gritos. Eu soube isso porque depois tanto o Diego Alves como o Diego Ribas me confidenciaram.”

Futebol mais lento no Brasil? Jogador brasileiro tem mais tempo para pensar? “Curiosamente, a primeira equipa que me convidou para treinar no Brasil foi o Vasco da Gama, a segunda foi o Atlético Mineiro e a terceira é que foi o Flamengo. Aquilo que nós tentámos, como equipa técnica… Porque eu via os jogos do futebol brasileiro, O jogador brasileiro, quando tem a bola em posse, para ele, ter um, dois, três jogadores, é igual, ele sabe conviver com a bola. É uma coisa incrível. Foram habituados, na formação, ao convívio com a bola, que é sempre mais importante que os outros aspetos do jogo. Tentei modificar os outros pormenores do jogo, a velocidade de execução que eles têm, pôr na velocidade do jogo. O conhecimento do jogo, pôr pelo talento deles, e isso fez com que a velocidade de jogo que nós implantámos no Brasil, sentimos que era importante transportar isso para o jogo. Havia qualidade dos jogadores. Vocês ouvem os comentadores dizerem que o jogo se parte. No futebol os jogos não se partem. Os jogos são 90 e tal minutos, o que se parte são as equipas. As equipas é que se partem taticamente. As equipas partiam-se muito, havia pouco rigor tático e nós tentámos passar essa ideia à equipa, que tinha de jogar mais ligada, mais próxima, sem muito espaço, conseguimos fazer com que o jogo fosse mais rápido. Agora é verdade que, principalmente em Portugal, o jogo muitas das vezes torna-se mais difícil pela qualidade tática dos treinadores portugueses. Os treinadores portugueses, claro que não são todos, mas são muito evoluídos defensivamente, em anular a capacidade do adversário. Faz parte do jogo. Aqui na Europa alguns jogadores notam que aqui têm menos espaço, menos tempo para pensar, exatamente porque a qualidade tática é introduzida e faz com que o jogador tenha essa facilidade. Mas já não é tanto assim. Nós deixámos um legado nas equipas brasileiras.”

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