Cardiologista do Benfica explica miocardite aguda de Daniel dos Anjos

A miocardite aguda diagnosticada a Daniel dos Anjos, após infeção de COVID-19, levou à suspensão provisória da atividade física do avançado do Benfica B, mas não é motivo de alarmismo, como explica Hélder Dores, cardiologista do Human Performance Department do Sport Lisboa e Benfica.

A situação de Daniel dos Anjos é temporária e menos grave do que parece.

Têm sido apontadas várias complicações cardíacas após infeção com COVID-19 e, num contexto da prática desportiva, assume relevância primordial a miocardite aguda, que, na prática, corresponde a uma inflamação do músculo cardíaco do miocárdio, cujas causas são sobretudo virais como é este caso. A importância deste tema prende-se com o facto de a miocardite ser, desde há décadas, reconhecida como uma causa de morte súbita em atletas, porque esta inflamação pode originar algumas arritmias graves induzidas pelo esforço físico. Contudo, a mensagem não deve ser de alarmismo, pelo contrário, porque esta situação é rara e felizmente a maioria dos casos tem bom prognóstico”, enquadra Hélder Dores em declarações à BTV.

Temos o exemplo do nosso atleta Daniel dos Anjos, que está estável, assintomático e sem complicações, a seguir todos os protocolos recomendados que implicam uma suspensão temporária da prática de exercício, após a qual será reavaliado e, se não existir nenhuma complicação, poderá eventualmente retomar a atividade desportiva competitiva normal”, explicita o cardiologista.

Quando, como e em que circunstâncias é que Daniel dos Anjos [na foto] poderá iniciar o processo de retoma? A monitorização e a avaliação são aspetos determinantes.

Se confirmamos a ausência de sintomas, não se justifica uma avaliação específica adicional. Por outro lado, aqueles atletas com sintomas ligeiros/moderados, além desta consulta, devem realizar alguns exames complementares de diagnóstico variados. Os mais comuns são análises do sangue, eletrocardiograma, raio-x do tórax, também ecocardiograma e prova de esforço, mas, de acordo com os sintomas, podem ser necessários exames muito mais específicos. Por outro lado, aqueles atletas com uma evolução clínica mais grave, felizmente muito raros, devem ser avaliados de uma forma ainda mais aprofundada e especializada”, responde Hélder Dores. “Daniel dos Anjos será reavaliado e, se não existir nenhuma complicação, poderá retomar a atividade”

Hélder Dores

Por tudo o que conhecemos e vivenciamos, a pandemia de COVID-19 transformou as nossas vidas e o mundo, nos contextos pessoais e profissionais. Hélder Dores fala da experiência no SL Benfica.

“A pandemia veio mudar a vida de todos nós, teve um impacto agressivo em todos os profissionais do Humam Performance Department. Tivemos de direcionar grande parte da nossa carga de trabalho para o seu combate. No início não foi fácil, porque estamos perante uma doença recente, com um ano de existência, na qual muitos aspetos estão mal esclarecidos, mas atualmente o nosso foco concentra-se em três aspetos fundamentais. Em primeiro lugar, continuarmos em cima dos atletas, sobretudo dos mais jovens, relativamente ao cumprimento das medidas preventivas que são recomendadas pelas autoridades de saúde. Em segundo, a programação e a realização de testes, que no nosso clube é praticamente diária. Terceiro, também a avaliação dos atletas, área onde eu me integro com mais frequência”, detalha o cardiologista.

Em tempo de pandemia, e porque os bons conselhos nunca são excessivos, Hélder Dores deixa uma mensagem a toda a população desportiva, neste depoimento à BTV.

“Em primeiro lugar, é fundamental seguir as regras básicas de proteção. É também importante estarmos alerta e detetar precocemente os sinais da infeção, e nesses casos pedir ajuda médica para uma orientação adequada. Uma mensagem final que entendo ser crucial é relembrar que o exercício se associa a múltiplos benefícios para a saúde, deve ser incentivado mesmo em tempo de pandemia, havendo até recomendações da OMS para este facto. A pandemia e a suspensão de muitas atividades desportivas têm afetado sobretudo jovens de exercício recreativo, com milhares de pessoas impedidas de praticar desporto, o que poderá ter impacto não a curto prazo, mas a médio/longo prazo com o aumento do sedentarismo e dos fatores de risco. Em suma, devemos continuar a praticar exercício físico, mas em segurança, e nós estamos cá para ajudar”, frisa o cardiologista do Human Performance Department do Sport Lisboa e Benfica.

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