Noronha Lopes deu entrevista e disse ao que vem

Noronha Lopes, 54 anos, promete um Benfica ambicioso, com afirmação europeia, credível e transparente. Em entrevista, o gestor explica que se candidata às eleições para «recuperar» a mística e a identidade que, entende, se perderam. Considera que o último mandato de Vieira prova que o tempo do atual presidente chegou ao fim.

– Há pouco tempo, numa entrevista ao projeto Benfica de Quarentena, Manuel Vilarinho disse que foi influenciado por «um grupo de jovens, gente como deve ser, que só gosta é do Benfica, gente de categoria, não como essa porcaria que anda por aí», para se candidatar à presidência do Benfica em 2000 contra Vale a Azevedo, e referiu-se, especificamente, ao «representante máximo dos hambúrgueres na Europa». Quem é essa pessoa e esse benfiquista a que se refere Manuel Vilarinho e que o universo benfiquista praticamente desconhece?

– Sou benfiquista desde que nasci, cresci com o Benfica e o Benfica sempre fez parte da minha vida. Essa referência de Manuel Vilarinho é verdadeira. Fiz parte de um grupo inicial de benfiquistas que estava muito preocupado com a situação que se vivia na altura porque estávamos em risco de perder o Benfica. Havia o risco de o Benfica deixar de estar nas mãos dos benfiquistas. Orgulho-me de ter pertencido, juntamente com outras pessoas, a essa jornada que devolveu a dignidade ao Benfica e que, principalmente, manteve o Benfica nas mãos dos benfiquistas.

– Revê-se neste elogio de Manuel Vilarinho?

– Manuel Vilarinho é um amigo, será para sempre o meu presidente. Se há coisa de que me orgulho muito é do meu benfiquismo. Nunca tive outro clube na vida. O único clube de que sou sócio é o Sport Lisboa e Benfica. Vivi grandes alegrias com o meu pai, algumas tristezas e continuei a viver essas alegrias e tristezas com os meus filhos. Somos todos benfiquistas. Ser benfiquista é quase uma parte do nosso apelido. Transporto comigo essa mística do Benfica que gostaria de voltar a ver no clube.

– No manifesto da sua candidatura, disse que todos reconhecem o trabalho de Vieira. A que se refere?

– Os benfiquistas têm de ter memória e têm de ser gratos pelo trabalho de Luís Filipe Vieira. Fez o Benfica crescer, profissionalizar-se e há que reconhecê-lo. Já o fiz publicamente, até na BTV. O facto de reconhecer-se o trabalho de quem o fez não invalida que se considere que um período chegou ao fim, que se chegou ao fim de um ciclo e que temos de fazer a mudança.

– E porque chegou o período de Vieira ao fim?

– Fazendo uma análise do último mandato, e é o último mandato que estamos a analisar, temos a sensação de que o mundo mudou, mas Luís Filipe Vieira não mudou com o mundo. Este último mandato foi pródigo em situações, como a repetição dos erros.

– Que erros são esses?

– Assistimos à repetição dos mesmos erros na planificação e na gestão da época desportiva. Todos cometemos erros. O que me preocupou e me preocupa é a repetição exata dos mesmos erros, por excesso de confiança, por soberba, por cansaço, não sei. Agora que repetimos os erros de gestão desportiva nos últimos três anos isso foi demasiado óbvio, perdemos dois campeonatos para um clube intervencionado pela UEFA, enfraquecido, saímos do top 20 da Europa. Tudo isto reflete essa desorientação, na escolha dos treinadores, no que se diz e no que se faz. Prometeu-se um Benfica europeu e ao mesmo tempo saíram muitos jogadores e não se reforçou a equipa. Garantiu-se que havia treinadores para muitos anos e os treinadores acabaram por sair. Ainda há pouco tempo, Bruno Lage era um treinador que ficaria, renovou-se o contrato de Bruno Lage e acabou por sair passado algum tempo. Há uma desorientação que é fruto do modelo de gestão ultrapassado, que assenta num homem só. O Benfica é uma organização demasiado complexa, com muitas variáveis, que tem de ter outro tipo de gestão. Sou gestor há 20 anos, já geri pequenas e grandes organizações, sei do que falo. O Benfica não pode ser gerido por um homem só.

– Porque se considera melhor candidato que Luís Filipe Vieira?

– Trago ao Benfica várias coisas, em primeiro lugar uma capacidade de gestão que resulta de 20 anos de experiência. No meu último cargo tinha a responsabilidade em 160 países, tive de lidar e resolver situações muito complexas e lidar com pessoas muito difíceis. Tenho esta capacidade de gestão internacional, obviamente também nacional porque foi aqui que comecei, tenho conhecimento daquilo que é o Benfica, a experiência com Vilarinho foi muito intensa numa altura muito difícil em que o futebol ainda era mais complicado do que é hoje. E tenho experiência de futebol internacional. Enquanto gestor internacional, a empresa para a qual trabalhava patrocinava a UEFA e a FIFA, desenvolvi boas relações com as pessoas dessas organizações e tenho um conhecimento do mundo do futebol internacional, dos patrocinadores, da importância do merchandising e da internacionalização de uma marca como o Benfica.

– No primeiro discurso, disse que o Benfica precisa de credibilidade e transparência. Não as tem?

– Posso só completar uma coisa?

– Claro.

– Uma coisa que para mim é muito importante, além da capacidade de gestão e da experiência. O Benfica tem de ser vivido com paixão, como algo único. Esta mística é única. O sítio onde me sinto melhor é no meu cativo a ver os jogos com os meus companheiros de há muitos anos. Quando não posso estar no meu cativo com os meus filhos, é na bancada, acompanhar o Benfica no estrangeiro, estive em Basileia, Londres e fui acompanhando o Benfica lá fora. É este benfiquismo que me faz tomar a decisão [de me candidatar].

– E não vê esse benfiquismo em Vieira?

– Estou a dizer-lhe o que sinto. É muito importante viver o Benfica com paixão e intensidade. Tenho essa característica desde que nasci. Isso ajuda-nos muito a tomar decisões e a compreender, por exemplo, a mística do clube. E isso tem de ser recuperado. A mística do clube, a importância da mística do clube, a entrega do Toni, a garra do Carlos Mozer, a paixão do [António] Simões, as lágrimas do Rui Costa, tudo faz parte de algo único que só os benfiquistas sentem. É gostar muito do Benfica quando ele ganha, mas gostar ainda mais quando ele perde. É o minuto 70 do jogo com o Sporting [a 25 de outubro de 2015, no dérbi com o Sporting, para o campeonato, público começou a cantar ‘Eu Amo o Benfica’ quando a equipa perdia por 0-3], quando o estádio inteiro canto ‘Eu Amo o Benfica’.

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