José Boto em entrevista a A BOLA fala sobre o mercado das águias

José Boto, antigo ‘chief-scout’ do Benfica, levou a experiência de mais de uma década no Seixal para o Shakhtar Donetsk. Em longa entrevistaem a A BOLA como a contratação do médio alemão Julian Weigl é marco para o futebol português.

O Benfica subiu esta época a fasquia na qualidade dos alvos que ataca, mas nem sempre os consegue convencer. Weigl é uma exceção?

É exceção. Mas o caso do Weigl deve ser bem salientado, porque ir buscar um jogador à Alemanha é muito complicado e eu sei porque fiz algum scouting lá e não era fácil convencer um alemão a vir para Portugal – e estamos a falar de jogadores de segundo plano! Agora, convencer um internacional alemão A, que jogava no Dortmund – apesar das pessoas dizerem que perdeu espaço, o perder espaço eram 15 jogos [risos] – e mesmo que fosse verdade que o Dortmund não o queria muito, era jogador que tinha mercado em muitos clubes alemães. Convencê-lo para a vir para a Liga portuguesa…? Tiro o meu chapéu a quem o convenceu. Acho que é um passo e marco no que são as contratações em Portugal.

Custou 20 milhões, teve entrada direta na equipa e já há quem duvide do valor dele…

Em Portugal analisamos tudo muito rapidamente e de forma extemporânea. Muitas vezes fazemos relações que não têm nada a ver. Também já ouvi dizer que desde que Weigl entrou o Benfica começou a cair [risos]. Conheço o Weigl, é bom jogador, de inegável categoria. Se foi a altura ideal para ele entrar na equipa, isso já não sei, porque não estou lá dentro, agora que é jogador de inegável categoria, é, e que em Portugal não temos muitos jogadores, principalmente naquela posição, com a capacidade que ele tem, também é verdade.

A questão física ainda tem peso muito grande no ‘scouting’ da formação, que sempre foi à base dos mais altos, mais fortes, mais rápidos?

– Infelizmente tem e costumo dizer isto: se olharmos para o que são os dois melhores jogadores portugueses a seguir ao Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva e João Félix, e olharmos para o percurso deles na formação, foram sempre jogadores que deixaram dúvidas a muita gente. E sempre pelas mesmas questões: as físicas. A pergunta que faço é: quantos Bernardos e João Félixes se perderam neste processo até agora, se ficaram pelo caminho por esta forma de olharmos para o jogador? Porque hoje olha-se muito para o jogador pela sua condição física, a altura e força, e menos para aquilo que na minha opinião interessa…

 … você olha para o quê?

– Para a relação com bola, inteligência, qualidade das decisões, até porque no jogo do Shakhtar tudo isto é muito importante, mais que qualquer qualidade física. A mim custa-me um bocadinho que apostem num tipo de jogador que eu digo à partida que não vai ter sucesso. Tem sucesso no momento porque é mais forte e mais rápido, mas não vai ter sucesso no futuro, porque não tem o essencial como jogador.

Que acha do Pedrinho, do Corinthians?

É jogador tecnicamente muito bom, muito bom mesmo, muito criativo, acho que as pessoas vão pôr-lhe alguns rótulos, de ser muito pouco intenso, muito brinca na areia, mas vou-lhe dizer que era um jogador que gostava de ter no Shakhtar.

Tem condições para vingar no Benfica?

Acho que é um jogador que a nível da criatividade, qualidade técnica e capacidade de desequilíbrio… não há muitos no campeonato português e no plantel do Benfica. Agora, lá está, têm de ter paciência com a adaptação a um jogo que tem ritmo diferente e não esperem do Pedrinho seja velocista como o Rafa ou Cervi, um lutador, porque não é. É um jogador muito bom no 1×1, que pode dar ao Benfica coisas que se calhar não tem neste momento. Agora, não esperem dele um jogador muito intenso, robusto, nem para ser amarrado a questões mais táticas. Encaixava muito bem aqui no Shakhtar… É dos melhores jogadores do Corinthians, ainda com idade baixa, tem muito para evoluir, muito potencial. Se é verdade que o contrataram, para mim é uma boa contratação para o Benfica.

Vlachodimos tem dado frutos ao Benfica…

Tem, tem, tem… Nos últimos jogos que tenho visto, na minha opinião, tem sido decisivo. É um guarda-redes que vale pontos quando se fazem as contas no final da época.

Não tem concorrência à altura no plantel – contratar guarda-redes era prioridade, como assumiu Bruno Lage. Esse aspeto da concorrência é fundamental?

Não falando especificamente do Benfica, não sei o que se passa lá, mas conhecendo os jogadores, conseguimos perceber se se sentem confortáveis com concorrência muito forte e se isso vai ser benéfico para o crescimento dos dois jogadores, e benéfico para o plantel. Mas também temos de perceber que há jogadores que não se sentem confortáveis com isso.

Pode criar atritos?

– Exato, porque não gostam de ser apertados, do estilo fiz grande época e agora querem contratar outro – estou a falar no geral. Temos de perceber o que temos pela frente. Há jogadores que precisam de ser pisados, sentir que ao mínimo descuido perdem o lugar porque o outro está ali, e há outros jogadores que não funcionam bem com esse tipo de pressão. É questão que os treinadores percebem, e têm de perceber, é uma das funções deles, entender a melhor forma de gerir o plantel. Posso dizer assim: vou buscar dois jogadores da mesma valia para a mesma posição. Depois acabo por não ter nenhum, porque nenhum deles tem rendimento bom. Um está chateado porque não joga e o outro não tem o rendimento que devia ter porque se sente muito apertado.

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