Luisão: “Acho que nunca me desliguei do adepto”

Chegou ao Sport Lisboa e Benfica em 2003, despediu-se dos relvados 15 anos volvidos, no dia 25 de setembro de 2018, com 37 anos. Numa entrevista de oito páginas ao diário desportivo “A Bola”, Luisão abre o livro e recorda uma vida intensa e feliz de águia ao peito.

As alegrias, as mágoas, os segredos, os amigos, os momentos inesquecíveis e a forma singular como viveu a Reconquista. Atualmente, aprende no Clube, dá palestras e especializa-se como comunicador motivacional… Tudo isto e muito mais!

A decisão e os adeptos

“Nunca me desliguei do adepto, o carinho é tanto… cheguei ao estádio no último jogo, para ser campeão, e na praça [rotunda Cosme Damião] estava toda a gente a gritar o meu nome. Luisão terminou e não se despediu dos adeptos? Essa história vai continuar para o resto da vida, sabe? Vou ter sempre esse carinho pelos adeptos e os adeptos esse carinho por mim, mas foi uma decisão que teve de ser tomada naquela altura e tudo aconteceu muito rápido. Luisão e os adeptos do Benfica, a maneira como me tratam… Esse sentimento vai continuar para sempre.”

Luisão

A Mística e o peso da camisola

“É um peso gigante. Temos de honrar sempre o Benfica. Eu procurei sempre defendê-la [a camisola], dentro de campo e através da conduta fora dele. Logicamente, com muitos erros que se cometem. Em primeiro lugar nunca foi o meu nome, Luisão, em primeiro lugar foi sempre o Benfica e a camisola do Benfica. E até discuti com torcedores, de dentro de campo para fora de campo, porque acho que o Benfica tem de estar acima de tudo, o amor pelo Benfica tem de estar acima de tudo. Os antigos jogadores, que passaram pelo clube e deixaram a famosa mística. Mas também é algo que trago comigo, é um dos meus princípios.”

Luisão e Benfica

Luís Filipe Vieira, o companheiro de viagem

“Hoje quando conversamos é sempre um companheiro de viagem. Fico muito feliz, porque consegui encontrar no Benfica um presidente correto e visionário, que pensava no futuro. Se nos tivéssemos encontrado noutro lugar ou se eu tivesse encontrado aqui outro presidente se calhar o Benfica não estaria como o conhecemos hoje. A primeira coisa que prezo, que não pode ser negociada, é o carácter. E encontrei nele o carácter e uma maneira de gerir totalmente diferente em relação àquilo que poderia imaginar num líder, num presidente.”

Benfica-Braga

André Almeida, a grande figura do 37

“Há muitas, vemos Pizzi a ganhar prémios, vemos os jogadores da formação, que é mais-valia do Benfica, e temos muitos jogadores da formação, mas apontaria, sem sombra de dúvidas, o André Almeida. Ele já passou por várias situações dentro do clube, mas esperou o momento dele e a liderança que ele teve dentro do campo e nos momentos difíceis… Mesmo com o adepto, por vezes, criticando algumas fases, ele manteve sempre aquela força, passou sempre aquela mística do Benfica de dentro para fora. Acho que valorizo todos, o contributo de cada um, mas perante essa questão… aponto André Almeida, sem sombra de dúvidas. No futebol, a nota artística é muito bonita, mas temos de valorizar também aquele jogador que está sempre ali lesionado ou numa forma mais abaixo, mas que se esforça no dia a dia. André Almeida, nesse ponto, é o que fica do título.”

Benfica Campeão Nacional

Bruno Lage… um treinador especial!

“Tive nove [treinadores]! Sou benfiquista, por isso tive nove! E considero nove porque aquilo que fez com a equipa não tem sombra de dúvida, nada tem a provar, já está recebendo elogios de toda a gente e recebe o meu elogio também. Mas o caráter, a maneira como ele lida com o ser humano, é para mim espetacular, por isso tenho de considerar que tive nove treinadores. Na festa do título ele tinha várias opções, tinha vários autocarros para voltar para o estádio, poderia optar por estar com os jogadores ou mais reservado, e quando entrei no autocarro das famílias ele estava lá, com a esposa dele. Só isso já mostra o caráter dele, nem me preocupo com aquilo que é o resultado final. Ele veio trazer para nós a simplicidade, como mostrou, simplicidade que eu já via nele quando me encontrava com ele no nosso centro de estágio. Não me surpreendeu. Vejo nele uma pessoa muito simples, a forma como soube lidar com Jonas… achei espetacular. A maneira como lidou com aqueles jogadores que têm história no clube e vão ficar no banco. Acho que o jogador não pensa se vai ficar no banco ou se vai jogar, acho que o mais importante para o jogador é a relação que tem com o treinador e nesse ponto Bruno Lage foi espetacular.”

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Um conselho a João Félix

“Um jogador com a qualidade do João Félix, jogando no Benfica, tem dimensão muito grande na Europa. Tem contrato, como todos sabem, se chegar alguma coisa concreta terá de avaliar. Avaliar se o melhor para ele é continuar mais um ano ou se deve sair. Mas penso apenas no facto de ser jogador do Benfica e que por agora está do nosso lado. Mas é lógico que, abrindo o mercado, acredito que vai ter proposta. O conselho que dou hoje a um atleta é pensar naquilo que é o plano de carreira e não numa oferta ou noutra. Onde estou, qual o objetivo do clube e aquilo que quero para mim. Já nos cruzámos e nunca entrei nesse assunto, não é a minha parte, mas se me pedisse conselho, daria esse: avaliar plano de carreira, porque acho que aqueles jogadores que tomam hoje uma decisão precipitada daqui a alguns anos podem arrepender-se. Ele deve avaliar se o melhor para a carreira dele é ficar, ou, se aparecer alguma coisa, sair. Ver o caminho a seguir.”

Luisão

A ligação ao Clube

“Tenho a felicidade de ter dois países muito acolhedores e parecidos. Quando estou aqui considero que estou no Brasil e quando estou lá considero que estou em Portugal. A minha função hoje é aprender, o presidente e o senhor Domingos [Soares de Oliveira, administrador executivo da SAD] deram-me oportunidade no Benfica e estou a fazer a faculdade aqui dentro e essa faculdade pode demorar 20 ou 30 anos. Eu é que pedi ao Benfica, eu é que falei com eles. Depois de 15 anos jogando futebol, ouvia dizer ‘quando parar ele vai ser adjunto’. Eu ria muito em casa pois já tinha decidido o que queria. E para estar no patamar dos adjuntos do nosso centro de estágio, para saber o que eles sabem… não poderia fazer isso assim que deixasse de ser jogador. E não é o meu objetivo. Pedi uma oportunidade, procurei o presidente e através do Domingos deram-me essa oportunidade e estou a fazer a faculdade com eles, o clube é uma referência no mundo. Estou a aprender aos poucos.”

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