João Tralhão revela qual a geração que o marcou mais

Nem tudo correu de feição a Bernardo Silva no trajeto que faz dele um caso sério no futebol mundial. Nos escalões de formação do Benfica, várias foram as dúvidas que atormentaram o então jovem talento das águias.

Quando chegou à equipa de juniores, e com receio de não ser opção, confidenciou a João Tralhão, o treinador, que queria sair. Seguiu-se, então, a conversa que lhe poderá ter mudado o destino.

Esteve mais de 18 anos na formação do Benfica. Qual a geração que mais o marcou e qual aquela que tem mais a sua marca?

A marca mais visível, enquanto treinador, são os resultados. Mas a marca que mais me satisfaz é receber mensagens de jogadores que não jogavam comigo, não eram opções, mas a quem dava mais atenção, porque sabia que não é fácil estar na fase final da formação e não ver uma luz ao fundo do túnel, não perceber o que seria o futuro. Hoje as coisas estão muito diferentes, há uns anos estavam mais difíceis, um jogador tinha dificuldades em lidar com a incerteza quando chegava aos juniores. Recebo hoje mensagens de agradecimento, ‘obrigado por me ajudar, por me mostrar o caminho’. Em relação às gerações, todas me marcaram. Tenho boas recordações de todas. A primeira geração com que trabalhei como treinador principal marcou-me muito. Tinha André Gomes, Cancelo, Hélder Costa. Eram jovens de grande caráter, mais adultos do que seria de esperar. Foi aí que comecei o meu percurso como treinador, com mais consistência. Depois, gerações como a do Bernardo Silva, a do ano passado do João Félix, todas marcaram a minha carreira.

Bernardo Silva quando chega ao João Tralhão não era utilizado regularmente, estava numa fase difícil da carreira. Pode dizer-se que lhe deu o grande impulso?

Não, o grande impulso foi dado por ele. O Bernardo começou a formação no Benfica aos nove anos, fez um percurso muito elogiado até chegar a um patamar em que eram necessárias outro tipo de competências. Sabemos bem, quando estamos a querer implementar uma política de afirmação do futebol de formação, que muitas vezes alguns talentos passam por momentos difíceis. Foi isso que se passou com o Bernardo. Passou por um momento do trajeto dele que o fez crescer porque não é só de elogios que se faz o crescimento. Também é de momentos mais difíceis. E essa resiliência, quando chegou aos juniores, ajudou-o a perceber o que era lidar com a frustração. Vou contar-vos uma história de quando ele chegou aos juniores. Estávamos a disputar o campeonato nacional de juniores e ele era sub-18. Veio ter comigo, muito envergonhado, e disse-me no final do treino no campo número 1 do Seixal: ‘Mister, eu para o ano preferia jogar num clube em que possa ser opção, aqui sinto que não vou ser opção, se calhar não apostam em mim aqui no Benfica’. Eu respondi-lhe: ‘Ó Bernardo, vamos fazer o seguinte. Tens seis semanas para mostrar que no próximo ano, comigo, vais ser tu e mais dez’. Ele olhou para mim muito espantado. É um jogador bastante inteligente, vocês conhecem-no.  Disse-me: ‘Ó mister, não goze comigo. Não estou a brincar com a minha carreira, quero ser um jogador de futebol’. Respondi-lhe: ‘Estou a dizer-te, vamos a um torneio internacional com grandes equipas sub-19 na Alemanha, tu vais como sub-18. Se te conseguires afirmar nesse torneio, vais demonstrar a mim e a toda a gente e, principalmente a ti, que vais conseguir afirmar-te no Benfica.’ Ele levou aquilo muito a sério, mudou um bocado o chip nessa conversa, começou a treinar-se de uma forma diferente para se preparar para o torneio. Durante esse período ainda foi utilizado algumas vezes na fase final do campeonato e, quando chegou ao torneio, afirmou-se de uma forma espetacular. As pessoas estavam espantadas, perguntavam-se como é que um menino daquele tamanho conseguia ser tão influente numa equipa. Encheu o campo. Chegámos às meias-finais, foi o melhor jogador do torneio. Todos os olhos da Europa, porque estavam lá muitas equipas influentes, começaram a fixar-se nele. No final do torneio, disse-lhe: ‘Lembras-te daquilo que falámos há umas semanas? Para o ano vais ser o capitão de equipa, número 10 e o jogador mais influente.’ E confirmou-se. Dei-lhe a confiança necessária na altura certa para ele poder afirmar-se e estou orgulhoso por isso. Acreditava que ia ser jogador de futebol e também lhe agradeço a forma como confiou em mim. Hoje é um orgulho vê-lo jogar àquele nível.

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