Duarte Gomes recordou o dérbi onde “inclinou” o título para o Sporting

Duarte Gomes falou finalmente sobre o fatídico dérbi, onde há 17 anos decidiu um título para o Sporting. O último dos leões de Jardel e companhia, foi inclinado com a ajuda de um avançado que tinha tanto de bom jogador quanto de batoteiro. A vítima não morreu solteira. O Benfica que ganhava 2-0 viu o jogo empatado a duas bolas, e o jovem árbitro que fazia a sua estreia em dérbis que ficava com essa mancha que perdurou até aos dias de hoje.

Numa crónina no “Tribuna Expresso”, Duarte Gomes recordou o jogo e as marcas que lhe deixaram até hoje.

A 15 de dezembro de 2001, Duarte Gomes apitou um Benfica-Sporting que ficou marcado por casos duvidosos. O ex-árbitro recorda “o jogo mais longo” da sua vida: “Mais de 17 anos depois, sinto que ainda não acabou”

15 de Dezembro de 2001. 21 horas.

Noite fria. Emoções ao rubro. Jogava-se mais um dérbientre os grandes de Lisboa.

A pouco mais de uma semana do Natal, todos os caminhos iam dar ao (velhinho) Estádio da Luz.

Setenta e cinco mil almas enchiam as bancadas com cor, alegria e muito entusiasmo. Verde e branco de um lado, muito vermelho do outro.

Mas já lá vamos. Antes de recuperar essas memórias, recuemos dez anos.

Tirei o curso em 1991. Um acaso levou a outro e lá fui parar, a uma sala da AFL e que ainda hoje existe, na Rua dos Fanqueiros. Caprichos da vida: um madeirense de gema, que chegara ao continente dois anos antes, acabou por tornar-se num árbitro lisboeta.

A ação demorou cerca de um mês, mais coisa menos coisa. Lá aprendi a teoria toda, pela voz, saber e experiência de nomes históricos da arbitragem nacional.

Apesar do empolgamento das aulas, a verdade é que nunca me passou pela cabeça arbitrar jogos de futebol. O que eu queria mesmo era conhecer as regras, perceber os porquês e os comos. Queria ter legitimidade para criticar. Queria poder opinar de forma avalizada.

Como adepto, nunca fui doente, irracional ou desvairado. Nunca sofri, nunca me desgastei ou chateei. Em minha casa, éramos todos assim. Saudáveis.

O que eu gostava mesmo era de jogar à bola. Cada garagem, cada portão, cada cantinho servia de baliza. Depois era só enrolar umas quantas folhas de papel, chamar a malta e pronto. Começava o jogo. O mesmo que acabava mal chegava a histérica da vizinha aos gritos, a refilar com tudo e com todos. Desmancha prazeres.

Aos domingos à tarde ia para o quintal e fechava para obras. Colava os ouvidos no rádio e devorava aquelas tardes desportivas bem ritmadas, à espera daquele momento em que a voz potente e sem rosto gritava “Gooooooooloooo”!Aos domingos à tarde ia para o quintal e fechava para obras. Colava os ouvidos no rádio e devorava aquelas tardes desportivas bem ritmadas, à espera daquele momento em que a voz potente e sem rosto gritava “Gooooooooloooo”!

Dez, quinze segundos de suspense e incógnita! De expectativa, de pura adrenalina: “De quem foi, de quem será?”, perguntava-me. Era qualquer coisa de fantástico…

À noite, não ia para a cama sem ver o resumo de todos os jogos, até mesmo daquele que vinha de Chaves e chegava quase sempre de madrugada. Caía de sono, pois claro… mas esperava. Esperava sempre.

Terminei o curso de árbitro e convenceram-me a experimentar. A fazer um jogo. Só um.

E lá fiz. Fiz um. Depois mais um. Depois outro. E depois… mais dois mil.

O medo deu lugar ao gozo. A timidez abriu portas à vontade. Passei a gostar daquilo. A gostar muito.

Era paixão, pura paixão. A mesma que tem o jogador que joga com um sorriso genuíno ou o adepto que vibra com o clube do coração.

Nos anos seguintes, dediquei-me de corpo e alma e fiz o meu caminho. Jogos após jogo, aqui e ali, em todos os cantinhos do distrito. Foi uma escola dura mas fundamental no meu crescimento.

A subida à primeira categoria foi rápida. Demasiado rápida para o que era suposto.

Pelos intervalos da chuva, fui bafejado pela sorte e por um contexto em que prevalecia a necessidade de haver “sangue novo”. Em apenas seis épocas, cheguei ao escalão maior do futebol português.

Tinha vinte e quatro anos. Vinte e quatro anitos. Um pequeno peixinho num aquário cheio de tubarões.

Percebi que estava completamente fora dela quando, no primeiro curso de abertura de época, preparava-me para entrar na sala onde estavam os árbitros principais e o (então) presidente mandou-me para a dos árbitros assistentes. Não me conhecia…

De volta à noite memorável de 2001.

O Benfica-Sporting de 15 de dezembro de 2001, apitado por Duarte Gomes, acabou empatado (2-2)

JOSE MANUEL RIBEIRO/REUTERS

O grande jogo da Luz, o meu primeiro grande teste, surgiu por capricho do sorteio. Era assim, na altura. As bolinhas é que escolhiam porque os homens não confiavam nos homens (psssiiuuu… os árbitros eram os mesmos, sorteados ou nomeados, mas não lhes digam nada).

A nível desportivo, a fase era boa, muito boa. Tinha acabado de ser indicado à FIFA e sentia-me feliz. Aos vinte e oito anos e em vésperas de receber as insígnias de internacional, preparava-me para arbitrar aquela que seria a partida mais mediática e sonante da carreira. Nem eu sonhava quanto.

Lembro-me que quase não dormi nos dias anteriores. Estava expetante, ansioso, nervoso até. Nunca na minha vida arbitrara um jogaço daqueles, com tanta gente a assistir, com tanto impacto e mediatismo.

Estava deslumbrado.

Foi o jogo mais longo da minha vida e hoje, mais de 17 anos depois, sinto que ainda não acabou.

Aqui e ali, há sempre alguém que me fala no Jardel. No famoso Jardel.

Cada um tem a sua cruz e essa é a minha.

Essa enorme infelicidade faz emergir uma verdade inabalável: a memória do adepto pode ser muito apurada e seletiva. É incapaz de se lembrar do que comeu ao pequeno-almoço mas jamais se esquecerá do erro cometido ao minuto oitenta e quatro de um jogo realizado há tantos, tantos anos.

Quanto ao lance em si, não tem história. Errei. Errei forte e feio.

O enganador diz que fez o seu trabalho, logo o enganado é corrupto. Dizem que faz parte. Está bem então.

Em boa verdade, bem antes desse minuto fatal, já eu estava perdido em campo.

Amarelos atrás de amarelos, um vermelho direto, péssima gestão de emoções e dois lances nas áreas que decidi na dúvida e que ainda hoje vejo como (muito) suspeitos: um, na área encarnada, a envolver Argel… e o penálti assinalado por alegada mão deliberada do Beto. Humm…

Certo, certo é que foi demasiado jogo para tão pouco árbitro. Estava verde. Não estava preparado para um espetáculo com aquela dimensão, com protagonistas de luxo e fiz, de facto, um péssimo trabalho.

VAR, VAR… onde andavas tu?

Uma das poucas memórias positivas que guardo dessa noite foi a da postura, educação e respeito que recebi de Robert Enke. Um senhor, antes, durante e depois das incidências.

Há pessoas tão superiores à vida que só o Céu as sabe entender.

Depois desse, outros vieram, por cá e lá fora. A carreira fez-se, mas sempre com essa pedra no sapato.

Mas o futebol evoluiu e hoje há outras condições, mais preparação e muitos mais meios. Os árbitros chegam mais tarde ao topo, com outra experiência na base e estão cada vez mais bem apetrechados, fisica e teoricamente. Estão também habituados a este frenesim mediático. Este é o seu métier.

Espero, sinceramente, que mais logo possamos todos assistir a um verdadeiro espetáculo dentro de campo e fora dele. Os ingredientes são de luxo e as atitudes dependem de cada um.

Uma certeza: o Jardel não estará por lá. Graças a Deus!!


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