“Super-Scout” do Benfica rumou ao Shakhtar e deu a primeira grande entrevista ao Expresso

JosebotoQuero ser scout. O que faço?
[risos] Eh pá, essa é a pergunta que mais me fazem. Todos os dias recebo mensagens com isso e é muito difícil responder. Se alguém quer ser treinador, pronto, vai tirar o curso. Se quer scout, já é mais complicado, embora já haja aí alguns cursos, mas que não são garante de nada, nem te dão qualquer habilitação específica para seres scout. Há um deles que pelo menos dá uns estágios, que é normalmente aquilo que aconselho às pessoas, porque assim pelo menos já entram no meio. Claro que isso não é garantia de nada, até porque é um meio onde os clubes procuram gente com experiência e com muito networking, que é algo fundamental nisto. Não é um mundo fácil onde entrar.

É preciso experiência prática, mas é difícil tê-la.
Sim, não dá para tê-la sem trabalhares nisto. Como é óbvio, há sempre que começar por algum lado. Normalmente se os clubes tiverem de escolher entre uma pessoa nova, que nunca fez isto na vida, por mais boas ideias que tenha, e entre uma pessoa que tenha experiência prática, normalmente preferem a pessoa com experiência prática, porque o scouting tem muito a ver com a experiência que vais adquirindo ao longo do tempo e com o networking, que te permite chegar mais rápido e de forma mais fácil às coisas. Embora em Portugal também não haja muitas pessoas com experiência – se calhar até é dos países onde é mais fácil para pessoas que não têm experiência na área entrarem num clube.

E antes disso também é preciso ter um bom entendimento do jogo?
Convém ter [risos]. Embora a observação de jogadores seja um pouco diferente da observação normal de um treinador ou de um observador, que quer ver os comportamentos da equipa. Aqui tens de partir um bocadinho o jogo, tentar tirar o jogador daquilo que é o contexto tático da equipa, para tentares perceber o que o jogador vale e o que podes transferir para a tua equipa, para aquilo que tu procuras. Portanto, não podes olhar tanto para os comportamentos táticos do jogador, porque esses são muitas vezes condicionados por aquilo que o treinador lhe pede. Tens de tentar perceber o jogador naquilo que é seu, embora isto não seja uma coisa linear, como é óbvio. Os jogadores também são muito daquilo que os treinadores lhes vão dando, não é?

Quando vais ver um jogador ao estádio, qual é a primeira coisa que tentas ver?
Normalmente aquela malta mais antiga – e eu também já sou um bocado dessa malta [risos] – costuma dizer que se vê logo qualquer coisa no pisar do jogador, na forma como se movimenta. Muitas vezes isso tem importância, porque hoje em dia olhas para muitos jogadores que parecem robôs, não só a andar, mas na coordenação motora que têm. Se reparares, aqueles jogadores que têm mais talento têm até uma forma de andar diferente. Mas é óbvio que não é por aí que olhamos [risos]. O que me chama mais a atenção num jogador é a relação que tem com a bola e depois o entendimento do jogo, se é inteligente, se entende a movimentação dos adversários, dos colegas… Isso é que são as coisas que me saltam mais à vista. Acredito que haja pessoas que olham para outro tipo de características para as quais não olho e não dou importância, mas para mim estas duas são as mais importantes.

Quando estás a ver um jogo com outros dez scouts, veem coisas diferentes no mesmo jogador?
Sim, completamente. Nós chegamos a estar rodeados por 70 ou 80 scouts nos torneios, como no Europeu sub-19 que esteve a decorrer agora, por exemplo. Se fores lá ver, metade da bancada estava cheia de scouts. É óbvio que as pessoas olham para o jogo e para o jogador de formas completamente diferentes. Aquilo que te parece bem a ti, a outro já não parece tão bem. Depois também depende muitos dos campeonatos. Se falares com um scout francês ou inglês, olham para um determinado tipo de coisas…

O poderio físico?
Exatamente. Nós às vezes até costumamos brincar com os scouts ingleses, o jogo ainda nem começou e nós já começamos a dizer quais é que eles vão achar que são os melhores jogadores – os mais altos e os mais fortes. Fazemos isto na brincadeira, claro, e eles aceitam perfeitamente, porque realmente dão muita importância a esse tipo de coisas. Agora já mudou um bocadinho, até porque o [Manchester] City já quebrou alguns tabus que havia, mas, se falares com um scout inglês, normalmente a parte física conta muito.

Ingleses e franceses são assim – e depois como divides o resto da Europa?
Sim, os franceses também olham muito para isso, mas depois também depende um bocadinho do clube, porque há clubes que são diferentes, mesmo dentro de campeonatos que têm determinadas tendências. Por exemplo, em Espanha preferem jogadores inteligentes, tecnicamente evoluídos, que se associem bem uns com os outros, mas dentro do campeonato espanhol também há um ou dois clubes que não pensam isso, pensam de forma diferente. Agora, no geral, os ingleses e franceses são os que olham mais para as questões físicas, para o tamanho, para a agressividade…

Portugueses e espanhóis olham mais para a técnica?
Os espanhóis. Os portugueses já não digo tanto. Depende muito do clube e das pessoas. Acho que não nos podemos comparar aos espanhóis nisso.

José Boto estava no Benfica desde 2007, época em que trocou definitivamente a função de treinador pela de scout

José Boto estava no Benfica desde 2007, época em que trocou definitivamente a função de treinador pela de scout

Tiago Miranda

Utilizando este Europeu sub-19 como exemplo, normalmente estarias lá como scout do Benfica. Quem seriam os outros clubes portugueses representados?
Normalmente éramos poucos. Era o Benfica, o FC Porto, o Sporting e o Braga. Ponto. Nos últimos anos, o Benfica marcou em presença em tudo o que era competição internacional “grande”, ou seja, desde os Europeus de sub-17 até aos Mundiais de sub-20. O FC Porto também esteve sempre presente. O Sporting tem alturas em que esteve presente e outras em que desapareceu um bocado. O Braga nos últimos anos também tem trabalhado bem nesta área e é natural vermos scouts do Braga nas grandes competições.

Faltam scouts nos outros clubes portugueses porque ainda não perceberam a importância do cargo ou porque não querem gastar dinheiro?
Se calhar se lhes perguntares ainda vão dizer que não têm dinheiro, mas penso que é um erro pensarem assim, porque um departamento de scouting ajuda o clube a poupar dinheiro. Ajuda-te a não comprares mal, a comprares segundo aquilo que o treinador quer… E os gastos também não são assim tão grandes como as pessoas possam pensar. Aliás, Portugal é talvez o único país da Europa que tem alguma importância no futebol e em que há equipas que estão na 1ª divisão e não têm gabinetes de scouting. Acredito que até possam ter alguém que veja isso por vídeo, mas não têm scouts presentes nos estádios regularmente. Se fores a Espanha, tanto os clubes da 1ª divisão como da 2ª divisão têm scouts nos estádios, na Alemanha também, Itália, França, a própria Holanda… Todos os clubes têm gabinetes de scouting. Em Portugal, tirando estes quatro clubes, não se vê ninguém. Nos estádios não estão.

Qual é a diferença de recursos entre o Benfica e os clubes europeus?
Nestes onze anos que passei no Benfica tive a sorte de contactar com muita gente e conhecer os gabinetes de scouting de praticamente todos os clubes. É óbvio que os clubes em Portugal, não só o Benfica, em termos de recursos, se compararmos com os ingleses… Eh pá, se te disser que o Manchester tem 40 e tal scouts e o Benfica tem quatro ou cinco, acho que dá para perceber que há uma diferença muito grande. Mas, se organizares bem um departamento de scouting, não precisas de ter muita gente, nem sequer precisas de ter gastos astronómicos, como se calhar as pessoas pensam que tem. Não me parece realmente que os gastos sejam uma desculpa para não ter um gabinete de scouting, porque isso vai ajudar-te a poupar. A diferença entre acertares e errares num jogador é essa. Ou teres um conhecimento mais profundo sobre o jogador. Claro que tenho ideia como se faz scouting em alguns clubes: é um empresário que fala de um jogador, dá-se uma vistas de olhos e pronto. Não é a melhor forma de se conhecer um jogador.

Quando chegaste ao Benfica, em 2007, já havia departamento de scouting?
Não. Quando entrei foi precisamente para começarmos a criar o departamento. Nessa altura o scouting era basicamente feito pelo treinador e nos moldes em que te estava a dizer, com os agentes a entregarem vídeos dos jogadores..

O best of de…
[risos] Exatamente, aqueles highlights em que os gajos marcavam o mesmo golo cinco vezes. Era um bocado assim. Na altura em que entrei, nós criámos o departamento e começámos a fazer muita observação in loco, porque também não havia as tecnologias que existe hoje.

Quantas pessoas estavam no departamento?
Era eu, era o Rui Águas, era o Pietra, era o Jorge Gomes, que ainda continua, e o Chico [Francisco Oliveira], no Brasil. Essa estrutura foi ficando a mesma, depois o Rui e o Pietra saíram e entraram o Abel [Silva] e o Mauro [Mouralinho]. É uma estrutura pequena mas funcional.

Antes de entrares lá, que experiência tinhas em scouting?
Fui treinador e enquanto treinava já fazia algumas colaborações com o Sporting, com o Aurélio Pereira. A minha experiência era essa, no futebol juvenil. Enquanto treinador ia vendo alguns jogadores e ia indicando ao Sporting. Depois, quando fui para o Alverca, já fazia um scouting mais sério, para a equipa profissional, indo ver jogadores ao vivo ou vendo DVDs que nos enviavam.

Há uma grande diferença entre ver um jogador ao vivo e ver num DVD?
Faz alguma diferença. Quando queres observar um jogador, principalmente no que diz respeito aos comportamentos sem bola, num jogo televisionado, seja num DVD ou através dos vários softwares que há hoje em dia, Wyscout ou InStat, não consegues ver esse tipo de coisas, porque normalmente a câmara acompanha o centro do jogo. Ao vivo consegues perceber tudo.

A transição de treinador para scout foi fácil?
Não foi muito fácil. Não só pela mudança na forma como tinha de começar a olhar o jogo, mas também na falta do contacto diário com o treino – tudo isso custou um bocado. Mas passado um ano ou dois já me tinha esquecido [risos].

Na época em que entras no Benfica, o treinador era o Fernando Santos…
[interrompe] Até te digo mais: o treinador era o Fernando Santos, eu vou ao Brasil ver uns jogadores e quando volto a Portugal já era o Camacho [risos].

Que tipo de relação tem um departamento de scouting com o treinador?
Isso depende muito da estrutura do clube. Há clubes onde a proximidade é grande. Por exemplo, agora no Shakhtar, a proximidade entre o treinador e o diretor de scouting é grande. Mas há outros clubes onde há uma distância maior, porque existe um perfil de jogador que não é do treinador, é do clube, e nós reportamos mais à SAD do clube do que ao treinador. É óbvio que há sempre relação entre o treinador e o scouting, mas o nível de proximidade depende muito do clube.

No Benfica não havia tanta proximidade com o treinador?
Não era uma relação tão próxima. Havendo reuniões com o treinador, não era um contacto diário. Tínhamos um perfil de jogador bem definido pela administração da SAD e era o que buscávamos, independentemente do treinador. Depois, claro que tentávamos adaptar algumas coisas àquilo que eram as ideias do treinador.

José Boto iniciou a carreira de treinador em 1996/97, no Loures, tendo depois desempenhado as mesmas funções no Sacavenense, no Alverca e no Vialonga

José Boto iniciou a carreira de treinador em 1996/97, no Loures, tendo depois desempenhado as mesmas funções no Sacavenense, no Alverca e no Vialonga

Tiago Miranda

Nestes 11 anos que passaste no Benfica, como é que o departamento evoluiu?
Tal como o scouting a nível mundial, também o departamento do Benfica evoluiu muito, principalmente no que diz respeito à utilização de novas tecnologias, como o Wyscout e o InStat, plataformas que te permitem ver qualquer jogo, seja aqui seja no Bangladesh. Essas plataformas permitiram ter os jogos completos passadas 24 horas após a realização dos mesmos e depois isso ainda evoluiu mais, porque hoje tu consegues, se quiseres, ver apenas os eventos em que um jogador intervém num jogo. Por exemplo, queres contratar um lateral e já o viste várias vezes, mas ainda tens alguma dúvida em relação à qualidade dos cruzamentos dele. Nessas plataformas, carregas num botão e consegues logo ver todos os cruzamentos que ele fez durante uma época. Ou seja, consegues ver e dividir todas as ações do jogador, num jogo ou numa época. Tudo aquilo que podes imaginar que o jogador pode fazer com bola, podes ver. Carregas lá nuns botões e vês tudo o que queres.

Antigamente tinhas um papel e uma caneta…
Íamos aos estádios com um papel e uma caneta na mão ou então esperavas por um DVD dos agentes, mas esses só tinham coisas boas dentro, não é? Para teres uma ideia clara do jogador, sem te sentires enganado, porque nos DVDs só vinham os melhores jogos dos gajos, tinhas obrigatoriamente de ir aos estádios. Atenção, acho que hoje também se deve obrigatoriamente ir aos estádios, só que estas tecnologias já te permitem tomar decisões de forma mais rápida.

Normalmente vês quantos jogos de um jogador antes de contratá-lo?
Depende muito.

Há um mínimo indispensável?
Não. Quando eles são muito bons não precisas de ver muito e quando eles são muito maus também não. Olhas para eles e vês logo [risos].

Há algum que tenhas visto e pensado logo à primeira “temos de ter este”?
Sim, posso dar-te um exemplo de um jogador que depois até nem singrou muito, mas que aqui teve uma época excelente. Não foi preciso ver muito, vi só um jogo dele ao vivo e fiquei logo encantado com o que vi. Depois ainda vi mais uma ou duas vezes, até porque na altura já tínhamos o Wyscout, mas foi mesmo só por descargo de consciência, porque sabia que aquilo que tinha visto já me chegava perfeitamente. Era o [Lazar] Markovic.

AFP

É engraçado, porque ele chega, faz uma grande época…
[interrompe] É vendido e sai.

E depois volta a Portugal, para o Sporting, e passa algo despercebido.
Isso é complicado, mas é um tema interessante. Em Portugal… quer dizer, não é só em Portugal, é em toda a Europa, temos a mania de dizer logo “aquele jogador foi um flop“. Mas isso muitas vezes não tem a ver com a qualidade do jogador, tem a ver com os contextos em que os jogadores são inseridos e principalmente com uma coisa que para mim é fundamental, que é a confiança do jogador. É o treinador que tem de lhe dar essa confiança, porque ele do clube já tem a confiança, porque foi contratado. Mas depois é o treinador que o mete a jogar ou não. E normalmente quando os jogadores sentem essa confiança por parte do treinador têm um rendimento sempre superior a outro que não sente essa confiança, porque se um jogador sente que o treinador não confia muito nele, cada vez que vai jogar, vai jogar sobre brasas, porque quer mostrar que tem valor. Temos casos como o Markovic, que chega aqui e tem um rendimento excelente e depois a partir daí a carreira dele foi a pique. Para mim, não é por falta de qualidade, são contextos. Se calhar os contextos para onde ele foi não foram os melhores para ele. Mas também acontece o contrário: há jogadores que chegam aqui e não têm a confiança dos treinadores mas depois saem daqui e conseguem. Estou a lembrar-me, por exemplo, do Cristante e Jovic, jogadores que chegaram aqui muito jovens e que as pessoas rotularam logo de flops, porque não começaram logo a jogar. Depois eles vão perdendo confiança e a partir daí é muito difícil terem um rendimento bom e mostrarem aquilo que as pessoas viram neles.

Esses dois casos que mencionaste foram as tuas maiores desilusões?
Não digo que sejam desilusões, porque eles acabam por dar, não é? Tanto o Cristante como o Jovic. Em termos daquilo que observei, não considero que sejam uma desilusão, porque estão a dar agora. Mas há um jogador que para mim foi uma desilusão: o [Filip] Djuricic. Foi um jogador em que eu, pronto, não só eu, mas nós todos apostávamos muito, depois de tudo o que tínhamos visto nele. Tínhamos a ideia de que ia ser um craque e depois não foi. Nem neste contexto nem em mais nenhum. E quando assim é também serve de reflexão.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Mas não dá para perceber ou dá?
Não é fácil, sinceramente. Tentamos perceber, mas é difícil. Agora, quando os jogadores não dão aqui e não dão noutro sítio, aí sim é preocupante.

Quer dizer, na tua perspetiva não é preocupante, porque então a culpa é dele.
Sim, mas se calhar nós devíamos ter percebido isso antes.

Quando vais ver um jogador, só podes saber como ele é até determinado ponto ou também tentas saber coisas sobre a vida pessoal, por exemplo?
Essa é outra questão importante. As pessoas acham isso, mas não percebem bem como se trabalha hoje em dia e o que é o negócio do futebol moderno. Se calhar acham que devíamos ter um conhecimento profundo daquilo que é a vida pessoal e a parte psicológica dos jogadores, mas isso é completamente impossível nos dias de hoje. Tu para perceberes isso tens de te aproximar do jogador e se fizeres isso estás a dar indícios de que estás interessado e isso às vezes é a diferença entre pagares €1 milhão ou €5 milhões. Há pessoas que às vezes me dizem: “Mas não eram bom fazerem uma entrevista ao jogador, para perceberem a parte psicológica?” Era, mas isso é impossível. É como vê-lo treinar. Hoje é inconcebível tu conseguires ver um treino de uma equipa, porque os treinos são todos fechados. O que consegues – e agora voltamos ao início, porque é por isso que muitas vezes os clubes preferem ter pessoas com boas redes de contactos – é perguntar a alguém da equipa técnica ou a alguém próximo como é que ele é no treino, como é a vida pessoal… Mas é sempre informação obtida através de terceiros, não és tu que estás ali a ver em primeira mão, porque isso é impossível.

Depois de veres um jogador que achavas que era indicado para a equipa, era fácil convencer o presidente do Benfica ou era preciso escrever muitos relatórios antes?
Isso depende, depende do jogador, depende do clube. Quando falas com um presidente o discurso tem de ser diferente daquele que tens com um treinador e é óbvio que há sempre relatórios. No caso do Benfica, havia uma relação de proximidade muito grande com o presidente, o que é, para mim, um dos fatores de sucesso do Benfica nesta área. Nunca aconteceu enviar um relatório e só dez dias depois é que liam o relatório, por exemplo. Não, o relatório era enviado e lido no próprio dia, havia um telefonema para conversar, havia uma relação muito próxima que permitia alguma rapidez no avançar para uma contratação.

Mas no início, quando ainda não tinham sido feitos muitos negócios de sucesso, como é que explicavas a alguém que ele tinha mesmo de contratar aquele jogador?
Isso é sempre uma questão de confiança, que se põe a toda a gente que trabalha nesta área, até ao Monchi [risos]. Quando mudas de um contexto onde estás inserido, onde as pessoas já têm confiança em ti, para outro diferente, é natural que tenhas de mostrar serviço e normalmente até teres uma prova de sucesso há sempre alguma desconfiança. No Benfica, como é óbvio, ao princípio havia alguma desconfiança, mas a partir do momento em que houve algumas situações que resultaram bem, não só desportivamente mas financeiramente, a confiança obviamente cresceu e depois já não era preciso explicar tanto por que razão é que aquele jogador era bom ou não. Tudo isso depende também muito da visão do clube, se quer jogadores só para o rendimento desportivo ou se também quer valorizá-los mais tarde.

Numa conferência em que te ouvi a relatar algumas experiências, disseste que tinhas visto o Eden Hazard com 16 anos. É difícil contratar um rapaz de 16 anos?
Isso aí é que é mais difícil. Porque vês que há um jogador que tem um talento enorme, mas também sei que é difícil convencer um presidente a pagar um balúrdio por um miúdo de 16 anos que, por um lado, não está pronto para jogar na equipa principal, mas por outro lado sabes que se não o fores buscar naquela altura nunca mais o vais conseguir ir buscar. E esse é hoje o grande desafio dos clubes – não daqueles clubes que podem pagar €60 milhões pelo Vinicius ou pelo Rodrygo, brasileiros com 17 anos, como fez o Real Madrid agora. Nós sabemos que há jogadores que só dá para ir buscar naquele momento, só que naquele momento eles ainda não estão prontos para jogar na equipa principal e não estando prontos para jogar na equipa principal corres sempre o risco da imprensa e do público achar que são flops: “Então para que é que pagaste €10 milhões por um miúdo de 16 anos que não joga na equipa principal?” Mas se não pagares naquela altura, passa um ano e já não consegues ir buscá-lo. Dou-te o exemplo do Rodrygo, o miúdo do Santos que o Real Madrid comprou por €60 milhões. Um miúdo que nasceu em 2001, atenção. 2001. Esse miúdo, para teres uma ideia, em novembro do ano passado custava €15 milhões. O que, para um miúdo de 2001, já é muito dinheiro, não é? E tu convenceres alguém que tem de pagar €15 milhões por um miúdo de 2001 é complicado. E quando convences, passado um mês ou dois, se calhar esse jogador já custa €60 milhões.

Iam buscar o Rodrygo?
[risos] Falou-se disso. Mas percebo que pagar €15 milhões por um miúdo que na altura até tinha 16 anos… Tu dizes assim: este miúdo chega aqui e joga na equipa do Benfica? Ou do Sporting ou do FC Porto, tanto faz. Com 16 anos, não sei. Pode dar ou não dar, o treinador pode ter medo de pô-lo a jogar e depois pagas €15 milhões por um jogador que passado uns meses toda a gente começa a dizer que foi um flop porque não joga.

Rodrygo, jovem do Santos que foi contratado pelo Real Madrid

Rodrygo, jovem do Santos que foi contratado pelo Real Madrid

E a partir do momento em que entra um clube como o Real Madrid na corrida, já não há hipótese?
Não. Ou os clubes ingleses, por exemplo. Por isso é que no scouting em Portugal tens de ser muito rápido e tens de correr riscos. Porque se queres ter a certeza… O caso do Rodrygo é um bom exemplo. Ele era um miúdo que jogava na equipa sub-20 do Santos e ali já vias que ele tinha muita qualidade. Mas quando é que tens a certeza que aquele miúdo realmente pode jogar a um nível mais elevado? Quando ele começa a jogar na equipa principal do Santos. A jogar e a fazer a diferença. Tu aí percebes claramente, mas aí percebes tu e já perceberam todos os clubes do mundo [risos]. Aqui a questão que se coloca é tu correres o risco na altura exata, pelos valores que são. O caso, por exemplo, do Jovic ou do Zivkovic, para falar de jogadores que vieram para o Benfica, são assim: ou ias buscar naquela altura ou então se deixasses passar mais algum tempo o valor deles ia aumentar. Depois o que é que acontece: chegam aqui e são muito novos e às vezes a adaptação não corre como se esperava. Se calhar não estão prontos ainda para jogar a um nível principal e depois lá está: “Eh pá, este é um flop“. Tenho muitas dúvidas de que o Jovic não venha a ser um dos melhores pontas de lança do mundo.

Tem muito a ver com essa pressão de se catalogar logo de flop?
Um bocado. Acho que às vezes a gestão que é feita dos jogadores – e aí não sei se a culpa é dos clubes, se é do entorno do jogador ou da própria comunicação social – não é boa, porque se eleva as expetativas para patamares demasiado altos e isso faz com que os adeptos fiquem à espera que um jogador de 18 anos chegue aqui e seja o melhor marcador da Liga portuguesa. Depois não é e é logo um flop. Por outro lado, também tens outra coisa em que os clubes portugueses têm uma desvantagem muito grande em relação aos outros clubes: o projeto que podes apresentar a um jogador destes. Ou seja, normalmente quando estamos a falar deste tipo de jogadores, que são jogadores internacionais, que os clubes já os viram nos Europeus ou Mundiais, quando vais falar com um jogador desses, normalmente ele já tem proposta de algum clube inglês ou alemão, por isso o projeto que tu lhes apresentas não pode ser… Deixa-me dar um exemplo que é mais fácil para as pessoas perceberem: o Jovic quando chegou ao Benfica era júnior. Já jogava na equipa sénior do Estrela Vermelha e já havia vários clubes alemães interessados nele, que lhe davam um projeto de equipa B, com alguma projeção para a equipa A, com salários muitos mais elevados do que aqueles que nós podíamos pagar. Então, como é que tu consegues convencer um jogador destes? Dando-lhe um projeto de equipa A. Só que muitas vezes eles não estão preparados para isso e quando chegam à equipa A… E depois quando os baixas para uma equipa B a motivação deles também vai abaixo, porque não era isso que eles esperavam. “Se fosse para ir para a equipa B tinha ido para o Dortmund”, por exemplo. Isso depois afeta muito o rendimento deles em campo.

Luka Jovic chegou ao Benfica em 2015/16, mas raramente jogou. Tem 20 anos e está atualmente emprestado ao Eintracht Frankfurt

Luka Jovic chegou ao Benfica em 2015/16, mas raramente jogou. Tem 20 anos e está atualmente emprestado ao Eintracht Frankfurt

É muito solitário ser scout?
Sim. É solitário porque passas muito tempo longe da família e dos amigos.

Não há dias nem horários?
Não. Vives em hotéis e em aeroportos, a maior parte das vezes sozinho. Por outro lado, é provavelmente a profissão no futebol na qual as pessoas mais se ajudam. Não há rivalidades entre scouts de vários clubes. Damo-nos bem e quando estamos em sítios juntos acabamos por ser a companhia uns dos outros. Mas não deixa de ser uma profissão solitária, porque nunca tens aquele dia normal em que sabes que às sete da tarde sais e vais ter com a tua família. Passas muito tempo longe e vais quase sempre sozinho, viajas sozinho, almoças e jantas sozinho…

E nem sempre corre bem.
Ah, isso então ‘n’ vezes. Estás sempre fora do teu meio, da tua zona de conforto, com carros alugados, em sítios para onde nunca foste na vida, então isso normalmente proporciona-te sempre aventuras engraçadas. Por exemplo, uma vez voei para Paris e depois fiz 300 km propositadamente para ir ver um jogador a Nantes. Cheguei lá e ele estava a aquecer. Fui beber um café e quando voltei o jogador já não estava lá. E eu penso: “Onde é que está o único jogador que vinha ver?” Lesionou-se no aquecimento [risos]. E depois voltas a fazer 300km para Paris para no outro dia apanhares o avião e foi uma viagem perdida, basicamente. Há colegas meus a quem isso aconteceu na Argentina, o que é bem pior [risos]. São coisas que nós não controlamos, obviamente. Outra coisa que me costuma acontecer, por dormir tantas noites em hotéis diferentes, é, às tantas, já não me lembrar do número do meu quarto. Já me aconteceu ir pôr a chave num número de um quarto que era o do hotel anterior e aparecer-me uma pessoa a abrir a porta para saber o que se passa [risos].

Esse tipo de questões são incontroláveis, mas se formos pensar bem nisto, um scout não consegue controlar praticamente nada. Mesmo que acredites que um jogador é muito bom, não és tu que decides se ele é contratado, e mesmo que seja contratado, não controlas a adaptação dele e não controlas se será utilizado ou não.
Sim, sim, é uma incógnita muito grande, porque a maior parte dos fatores não depende de ti, são fatores externos que não controlas. A contratação depende sempre de alguém que está acima de ti, mesmo que a palavra final seja tua em termos desportivos, mas depois há sempre a parte financeira. Depois, mesmo que seja contratado, não és tu que o vais pôr a jogar, é o treinador. E depois ainda há a questão da adaptação a um país diferente. É verdade que é uma profissão em que controlas muito pouco, a não ser a ideia que tens sobre a qualidade – ou não – do jogador.

Os jogadores sobre os quais davas aval de contratação – Witsel, Zivkovic, Markovic, etc – conheciam-te? Sabiam quem és?
[risos] A maior parte das vezes não sabem. São capazes de passar por nós no corredor e não saber. Mas também não é muito importante que o saibam.

Nestes últimos anos, começou a falar-se mais do scouting do Benfica, por ter acertado uma série de negócios.
[risos] Começou-se a falar muito, principalmente a nível internacional, principalmente pela forma agressiva como estávamos no mercado, porque chegávamos mais rápido do que os outros – ainda os outros estavam a ver e já nós os tínhamos contratado. E depois é claro que teve muito a ver com os preços pelos quais vendíamos os jogadores. Houve realmente uma altura em que tinha colegas scouts que me diziam assim: “Eh pá, nós fomos todos chamados pelo chefe a perguntar porque é que não vimos este jogador que o Benfica viu e agora vamos ter de pagar três ou quatro vezes mais por ele”. [risos] Isso tem a ver com a agressividade com que os clubes portugueses – e aí não é só o Benfica, porque houve uma altura em que o FC Porto também trabalhava muito bem – se movimentam no mercado. Também porque se não for assim, de forma agressiva, depois não têm hipótese nenhuma. Sendo Portugal um país que até nem tem muita tradição no scouting, porque como já te disse há quatro clubes com scouting, a verdade é que os clubes que o tinham, neste caso mais o Benfica e o FC Porto, acabaram por ter uma visibilidade internacional muito grande, o que permite que os scouts portugueses sejam requisitados e saiam para clubes estrangeiros, como é o meu caso agora. Se falares e andares no meio, vais perceber que um scout inglês, por exemplo, demora muito tempo a tomar uma decisão e os portugueses são muito mais rápidos, com os riscos que isso acarreta, claro, para o bem e para o mal. Não precisamos de ver tantas vezes e não temos tantas dúvidas sobre o valor dos jogadores.

Achas que isso acontece porquê?
Acho que também tem a ver com questões culturais, porque nós somos mais desenrascados e achamos sempre que sabemos as coisas primeiro do que os outros.

Se calhar os ingleses também se focam mais em questões de análise quantitativa do que qualitativa?
Sim, eles também trabalham muito com isso. Mas pronto, sempre foram assim, são muito indecisos. Os jogadores têm sempre todos defeitos. Costumo dizer que quanto mais vês um jogador, mais defeitos ele tem. Porque é natural. Tu olhas para o Messi e consegues arranjar-lhe defeitos – e é o melhor jogador do mundo – e o mesmo para o Ronaldo. E eles são muito assim: olham, olham, olham, tudo ao pormenor, depois muita gente a ver, depois opiniões diversas e depois não avançam para a contratação. E depois o que é que acaba por acontecer? Chegam os últimos dias do mercado e os ingleses compram qualquer coisa [risos].

Como podem pagar…
Sim, também tem muito a ver com isso. Têm um poder económico completamente diferente. O Fulham recentemente pagou €20 milhões por um jogador e o Fulham acabou de subir à Premier League. Eles têm essa facilidade, o que lhes permite também demorarem mais tempo e comprarem mais tarde. Mas o que me faz confusão neles é que ponderam muito e depois acabam por comprar pior.

Com a tua saída, o departamento de scouting do Benfica fica bem entregue?
Sim, completamente. A estrutura mantém-se praticamente igual, entra o Pedro [Ferreira], que estava na formação e que fez um excelente trabalho, basta ver aquilo que tem sido a quantidade de jogadores que o Benfica tem lançado, não só na primeira equipa como também nessas equipas pela Europa fora. Tudo aquilo que é hoje a formação do Benfica é uma referência na Europa e isso tem muito a ver com a qualidade dos jogadores, ou seja, não há boa formação se não escolheres bem os teus jogadores. Podes ir buscar os melhores treinadores do mundo, mas se lhes meteres paralelepípedos para treinar eles não conseguem fazer dali nada. Esqueçam lá isso. Portanto, o departamento fica muito bem entregue, porque o Pedro tem uma ideia muito boa do jogo e das características que devem prevalecer naquilo que é um bom jogador.

E quais é que são essas caraterísticas que referes? Porque há uns anos o recrutamento na formação tinha como um dos critérios a altura dos jogadores, por exemplo.
Pois. Agora isso já não era assim, com o Pedro seguramente que não. O que se vai passar a seguir não sei. Em relação ao Benfica estou mais preocupado com o que se vai passar na formação com a saída do Pedro do que com o scouting no futebol profissional, porque acho que aí não vai haver grande diferença. Com maior ou menor dificuldade, o Pedro vai perceber como tem de se movimentar no futebol profissional, porque qualidade ele tem e porque o resto das pessoas continua na estrutura. Na formação, o Pedro foi nos últimos anos o responsável por estes bons talentos que o Benfica tem tido e não por jogadores grandes e altos. Aquilo que se vai passar agora é que me preocupa mais, porque não sei como é que vai ficar entregue.

José Boto com Sergey Palkin, CEO do Shakhtar Donetsk

José Boto com Sergey Palkin, CEO do Shakhtar Donetsk

DR

Já começaste a trabalhar no Shakhtar Donetsk?
Sim.

Qual foi a impressão, comparando com o Benfica?
Sem querer estar aqui a entrar em grandes romantismos, o Benfica é um dos maiores clubes do mundo, em termos de adeptos e do impacto social que tem, é uma coisa impressionante. Um dia estava a chegar ao Estádio da Luz, ali numa rua inclinada que tem um semáforo, e sem querer deixei descair um pouco o carro e bati no da frente. Saí, pedi desculpa e disse ao homem para preenchermos os papéis. Ele fica a olhar para mim, até que pergunta: “O senhor é o José Boto do Benfica?” Respondi que sim. E ele diz assim: “Ó homem, então vá lá trabalhar, não se preocupe, vá embora”. Meteu-se no carro e foi-se embora [risos]. Conheço bem a Europa do futebol e posso dizer que não há muitos clubes com o impacto que o Benfica tem. Nisso é óbvio que o Shakhtar não tem a mesma dimensão, até porque é um clube que era de uma zona na Ucrânia e neste momento nem sequer está lá, está desterrado da sua zona natural de adeptos e daquilo que é a sua implementação social. O clube neste momento está sediado em Kiev e logo aí é uma diferença grande, porque não está na sua zona. Agora, a nível de recursos é um clube que tem pelo menos o nível do Benfica, porque é um clube completamente moderno, que até me surpreendeu a nível de tudo o que é a estrutura, para um clube que ainda por cima está fora da sua zona. Porque o clube tinha um estádio que era um dos melhores da Europa, tinha uma academia brutal e de repente teve de abandonar isso tudo e criar novas estruturas, mas tudo o que está a criar é top. E depois é um clube que nos últimos anos tem dominado a liga ucraniana, é presença assídua na Liga dos Campeões e em 2008/09 ganhou a Liga Europa.

Em termos financeiros tem mais poder do que o Benfica?
Sim, mas também tem targets diferentes. Ainda estou um bocado a perceber o clube, porque entrei há pouco tempo…

Mas já percebeste que vais ver muito Brasileirão, porque contratam muitos brasileiros.
[risos] Sim. Mas eles contrataram-me também para terem uma abrangência maior no scouting e organizarem melhor o departamento, com base de dados, para ser um clube sempre presente em tudo o que são grandes competições, tal como o Benfica estava. É óbvio que por uma questão de tradição, por algo que tem funcionado bem, o mercado brasileiro é prioritário. Se olharmos para aquilo que era agora a seleção brasileira, tinha dois jogadores que jogavam no Shakhtar e mais três que já tinham passado antes pelo Shakhtar: o Fernandinho, o Willian e o Douglas Costa. Portanto, num universo de 23 jogadores ter cinco internacionais que passaram pelo Shakhtar é um sinal de que se tem trabalhado bem nesse mercado.

Isso acontece porque é um mercado barato e com muito talento bruto?
Não é tão barato assim, porque os jogadores talentosos agora saem por €60 milhões [risos]. Mas o Shakhtar é uma boa porta de entrada para os brasileiros, assim como foi há uns anos Portugal. O clube está na Europa, tem um bom nível, joga na Champions League e isso é apelativo para um jogador. Se calhar o Shakhtar é mais apelativo para um jogador brasileiro do que para um jogador português, por exemplo.

Gostas de ver os jogos brasileiros?
Gosto, porque é talvez dos poucos sítios onde o talento ainda se sobrepõe a tudo. Os jogos são um bocadinho anárquicos em termos táticos…

É mais fácil observar um jogador assim?
É, é, porque tu vês aquilo que o jogador vale. Como o jogo não é muito controlado pelos treinadores, felizmente, tu consegues ver o jogador naquilo que é natural dele: o entendimento que ele tem do jogo, a sua qualidade técnica, as decisões que toma, que não são padronizadas, são mais o que lhe sai da cabeça… E é por isso que são um produtor de talentos como não há mais nenhum no mundo.

Na altura em que o Jorge Jesus foi para o Sporting, falou-se que ele te tinha convidado para o acompanhares. Foi assim?
Prefiro não responder. Isso são coisas que já passaram, já estão no passado.

E agora antes de anunciares que ias para o Shakhar falou-se no interesse do Manchester United.
Não, ninguém falou comigo sobre isso. Se calhar também é importante esclarecer bem isto, porque na última assembleia geral do Benfica até confrontaram o presidente com a minha saída: a decisão de sair foi minha e foi apresentada ao presidente quando já estava tomada. E queria também dizer, para que as pessoas o saibam, que o presidente, mais do que ter sido meu presidente durante estes 11 anos, é também um amigo. Portanto, quando falei com ele e apresentei a minha decisão já não havia volta a dar, porque tinha a ver com a minha vontade de sair de Portugal e experimentar outros desafios. E também tinha a ver com a possibilidade de poder trabalhar com um treinador que, em termos daquilo que são as ideias de jogo, se aproxima mais de mim – ou melhor, eu é que me aproximo mais dele – do que com os outros treinadores com quem trabalhei até agora. E também teve a ver com o projeto do clube e com a forma como mo apresentaram, através do CEO do Shakhtar, Sergey Palkin, que é uma pessoa espetacular. Quando ele me apresentou o projeto, fiquei logo apaixonado. Portanto, quando falei com o presidente, já era uma decisão tomada, não era uma questão de dinheiro, nem nada que se pareça, porque não havia mais dinheiro que me fizesse ficar. O presidente tentou demover-me, mas depois também percebeu as minhas razões para querer mudar de ares e continuamos amigos.

Gostas das ideias do Paulo Fonseca?
Sim, em termos daquilo que é a sua ideia de jogo, ele é, para mim, dos melhores treinadores portugueses – talvez o melhor mesmo. O que é diferente de ser o melhor treinador português ou não, isso já é outra coisa. O melhor treinador é aquele que ganha. É a única forma que tens de ver isso. O gajo que ganha é melhor do que o gajo que perde, pronto. Mas depois há uma questão de gosto e daquilo em que tu acreditas, e nisso o Paulo é, para mim, o melhor treinador português, porque tem uma maneira de jogar com a qual eu me identifico.

Paulo Fonseca treina o Shakhtar Donetsk desde 2016/17

Paulo Fonseca treina o Shakhtar Donetsk desde 2016/17

CARLO HERMANN/GETTY

Então não gostas muito das ideias de Rui Vitória e Jorge Jesus.
São treinadores com os seus méritos, como é óbvio, mas em termos daquilo que é a ideia de jogo, estou muito mais próximo do Paulo do que qualquer treinador que tenha passado pelo Benfica desde que lá entrei.

Estavas a dizer que o melhor treinador é sempre aquele que ganha. E o melhor scout?
É difícil dizer. Se calhar é aquele que acerta mais vezes. Mas como o acertar mais vezes não depende de ti… Imagina isto: tu aconselhaste dez jogadores a um clube médio da Europa. Nenhum desses dez jogadores deu no teu clube, mas os dez deram no City, no Liverpool, etc, depois de terem saído do teu clube. Então e agora? Como é que tu valorizas o scout? Podes sempre olhar para isto de duas formas: o scout não é bom porque não percebe o que o clube dele precisa ou então é muito bom porque foi buscar jogadores de qualidade que depois têm uma projeção muito maior.

Quando falei com o Gilles Grimandi, chief scout do Arsenal, ele disse que tu eras um dos melhores do mundo.
O Grimandi é um gajo porreiro [risos]. É uma pessoa que tem uma experiência enorme, com muitos anos de scouting, sempre como braço direito do Wenger. Se calhar o trabalho dele também era mais fácil porque conhecia perfeitamente o Wenger e sabia perfeitamente o que ele queria. Se calhar o Grimandi disse isso muito pela tal rapidez de decisão. Em 11 anos já vimos ‘n’ jogadores a aparecerem e acertámos em muitos. Como o Hazard, que vimos com 16 anos e achámos que ia ser top mundial – e depois se ele realmente chega lá isso também te dá um certo reconhecimento por parte dos colegas. Às vezes há casos em que há colegas têm dúvidas e eu atravessava-me logo por eles e dizia que aquele ia dar, e depois se dava…

Por exemplo?
O Courtois e o De Bruyne, por exemplo. Vi-os ainda muito novos, na altura em que saltaram dos juniores para a equipa principal do Genk e ainda não eram titulares. Alguns colegas na altura tinham dúvidas, porque o De Bruyne era muito mole, não tinha intensidade e não sei quê, mas pronto, isso é normal, às vezes achamos umas coisas e às vezes outras.

Mas dá para apontar uma lista de melhores scouts do mundo, como se faz com os treinadores?
Acho que não. Tens é pessoas que são muito experientes na área e que conseguem ter uma flexibilidade grande para perceber o que os treinadores e os clubes querem, e que também têm uma capacidade para dirigir bem os departamentos de scouting, rodeando-se das pessoas certas. Se calhar é mais fácil dizeres o que é um bom chief scout do que um bom scout. Porque um scout também depende muito… Não vou dizer o nome dele, mas tenho um amigo meu que trabalhava para um clube francês de nomeada e ele dizia-me: “Eu não sou scout, eu sou fazedor de relatórios. Eu faço relatórios e depois ninguém os lê”. [risos] Assim nunca sabes se essa pessoa é boa ou não, porque ninguém a ouve. Há clubes onde realmente isso se passa, há scouts mas depois ninguém lhes liga muito.

Temos agora um mês de mercado pela frente. O que te parece que os clubes portugueses podem conseguir?
Acho que, nesta altura, com o mercado em plena ebulição, o que os clubes portugueses normalmente conseguem, como têm provado nos últimos anos, são alguns jogadores que são mais-valias para a nossa liga, já com bons CVs, com experiência, e que não estão a dar e são descartados por clubes maiores. O foco é mais esse, já ninguém vai ao mercado agora para ir buscar um jovem de futuro, porque isso já houve o ano todo para ver. É altura de os clubes ficarem atentos, porque às vezes as coisas aparecem. Por exemplo, tenho uma história gira que acho que as pessoas não sabem, sobre o Aimar. Eu e o Rui Costa adorávamos o Aimar. E houve uma altura em que lhe disse: “Ó Rui, olha que o Saragoça está para descer”. E ele: “Eh pá, se calhar é uma boa altura para tentarmos o Aimar”. E então todos os domingos trocávamos mensagens a festejar as derrotas do Saragoça [risos]. Coitados deles, mas nós estávamos a torcer para que perdessem e descessem de divisão, para depois irmos buscar o Aimar. Portanto, aqui nem é uma questão de scouting, é uma questão de perceber as oportunidades e isso também acaba por fazer parte de um gabinete. Se perceberes que um jogador vai deixar de ter espaço num sítio, podes atacar essa oportunidade, no momento certo.

Pablo Aimar do dia da sua apresentação no Benfica, em 2008, junto a Rui Costa

Pablo Aimar do dia da sua apresentação no Benfica, em 2008, junto a Rui Costa

FRANCISCO LEONG

Pois, ia dizer-te que se calhar neste mês um scout até nem tem muito para fazer, mas pelos vistos até tem, numa outra perspetiva.
Pois, isto depende sempre dos clubes. No meu caso, no Benfica e no Shakhtar, nós avaliamos aquilo que são as oportunidades que surgem no mercado. Se nos dizem que há a possibilidade de contratar determinado jogador, temos de ver se vale a pena ou não. Ou seja, não podemos tirar férias nesta altura. Um scout que tire férias nesta altura é porque não tem muita importância no clube [risos].

Quando tira férias então?
Em setembro, quando fechar o mercado.

E no dia 31 de agosto…
[interrompe] Quando está toda a gente a bombar. Isso é uma estupidez, uma coisa criada para vender. As pessoas fazem do dia 31 a loucura total e depois não conseguem uma contratação por dez segundos… Acho que isso revela pouco profissionalismo dos clubes, porque tens dois meses, quer dizer, tens um ano inteiro para fazer as coisas. Acredito que há oportunidades que surgem nesta altura, até porque há um clube à espera de contratar um jogador para depois libertar outro e tu ficas à espera disso, mas depois não percebo essa loucura: “Faltam 20 minutos para fechar o mercado!” [risos]

Das contratações que temos visto neste mercado em Portugal, quem destacas?
Acho que o Estoril – e estamos a falar de um clube da 2ª divisão, atenção – foi buscar um jogador, o [Renat] Dadashov, que é um ponta de lança que pode ser um dos melhores pontas de lança da Europa, desde que o clube consiga que ele se centre naquilo que ele deve fazer, que é jogar futebol. Ele foi titular nas seleções jovens da Alemanha e entretanto decidiu mudar para o Azerbaijão, porque o pai é do Azerbaijão, e esteve no RB Leipzig e no Frankfurt. É conhecido por ter um feitio especial [risos], mas se conseguir moldar aquele feitio pode ser um caso sério, por isso acho que é um jogador que se deve seguir com muita atenção. Assim de repente é dele que me lembro, dos menos evidentes. Não vale a pena estar aqui a falar do Ferreyra, que já toda a gente conhece.

E relativamente aos jovens portugueses?
Acho que há três jogadores da formação do Benfica que têm todas as condições para serem jogadores de top mundial: o Félix, o Dantas e o Gedson. O Gedson porque tem condições ímpares, é daqueles jogadores que vai agradar a gregos e a troianos, porque fisicamente é um jogador forte, mas é inteligente e bom tecnicamente, e se for bem enquadrado pode jogar em qualquer tipo de modelo de jogo que o treinador queira. O Gedson já está pronto e os outros em breve. Mas os três têm tudo para chegar ao top mundial.

Gedson já está integrado na equipa principal do Benfica, aos 19 anos

Gedson já está integrado na equipa principal do Benfica, aos 19 anos

Icon Sportswire

E fora do Benfica?
O Dalot, que saiu para o United, por exemplo. O Diogo Costa, guarda-redes que está na seleção sub-19, também pode ser um jogador de topo.

Há jogadores que andamos a desaproveitar?
Há alguns jogadores que acho que têm qualidade para mais e tenho alguma pena por ainda não terem dado, se calhar os treinadores também não souberam retiraram o máximo deles. Lembro-me do Francisco Geraldes, que para mim tem um potencial e um talento incríveis, e do próprio Podence também. Para mim, estes dois jogadores já deviam estar num patamar acima daquele em que estão.

Dos óbvios não vale a pena falar, porque toda a gente vê, mas quem é te deixou uma boa impressão no Mundial? Ou o Mundial não é sequer um bom sítio para ver seja o que for?
Pois, acho que o Mundial não é um sítio nada bom para ver jogadores. Primeiro, porque é uma competição muito específica. Depois, porque os jogadores chegam em condições físicas e psicológicas até algo debilitadas, porque estão fartos de estágios e de uma época inteira, portanto o Mundial às vezes até é mais uma chatice e não os vês na sua plenitude. Por outro lado, se não conheces os jogadores que chegam a um Mundial, então não conheces ninguém [risos]. Agora, das seleções menos óbvias, das que acompanhamos menos as Ligas, houve um jogador que me surpreendeu bastante, embora já o conhecesse antes: o Arzani, da Austrália. Acho que é um jogador que daqui a uns anos pode estar noutro patamar.

Arzani, internacional australiano de 19 anos que joga no Melbourne City

Arzani, internacional australiano de 19 anos que joga no Melbourne City

É engraçado, porque ele sempre que entrava, entrava bem, mas não chegou a ser titular.
Acho que as seleções muitas vezes têm pouco a ver com a qualidade do jogador e mais com o peso que ele tem no grupo. E se calhar o jogador que jogava ali tinha peso no grupo e não dava para encostar, por exemplo. Porque ele cada vez que entrava mostrava qualidade acima da média da seleção dele.

Gostavas de ser scout, por exemplo, no Real Madrid, onde podes comprar tudo o que te apetecer?
Bom, mas o Real Madrid até é dos clubes que anda a trabalhar bem no scouting. Tudo o que é bom jogador espanhol eles têm conseguido e estão a ter mais talento do que o Barcelona.

Porque veem antes ou porque pagam mais?
Pois, aí é que já não sei. A capacidade financeira obviamente sabemos que têm. Pagar €60 milhões por um jogador de 2001, que ainda nem pode vir para a Europa porque tem de fazer 18 anos… Agora, que eles estão a ir buscar o talento, tanto espanhol como brasileiro, isso estão.

Mas a minha pergunta era mais no sentido…
Eu percebo, é: “Então quer o Ronaldo ou quer o Messi?” Acho que não me dava gozo fazer isso. Para tomar esse tipo de decisões acho que os clubes nem precisam de scouts. É perguntar ao treinador: “Prefere o Ronaldo ou o Messi?” E depois compram o que querem.

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