Bicampeão europeu em 7 dias, João Pereira dá entrevista ao Maisfutebol

Triatlo Sprint Campeão EuropeuJunho de 2017 ficará para sempre na memória de João Pereira, triatleta que veste as cores do Benfica e de Portugal. Venceu o Campeonato da Europa de triatlo olímpico, na Áustria, e o Campeonato da Europa de sprint, na Alemanha. O primeiro no dia 17, o segundo no dia 25.

Há quase 10 anos na modalidade estes são os maiores feitos da carreira, mas não os únicos, e João Pereira não quer ficar por aqui. «Foi uma semana fantástica, sem dúvida, mas a época ainda não acabou. Continuo focado nos objetivos», disse João Pereira ao Maisfutebol.
O atleta, de 29 anos, natural das Caldas da Rainha, começou no triatlo por acaso – como consequência de precisar de boa média a Educação Física para entrar na Universidade – e «demasiado tarde» para aquilo que é o normal, mas hoje em dia dedica-se a 100 por cento e é um dos melhores na modalidade.
Entrou na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, congelou a matrícula e agora nada, pedala e corre, levando o nome do clube encarnado mais além e o de Portugal também. No currículo conta ainda com um espetacular quinto lugar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016), na primeira participação olímpica.
«Há quatro anos se me dissessem que seria assim, não acreditava. Não diria que o meu percurso passaria por aí. Sei que seria difícil, mas é o resultado de muito trabalho, dedicação e também sorte», disse, recordando que em 2012 falhou os JO de Londres.
O ritmo de João Pereira é elevado e os dias são completos, mas só assim se fazem os campeões. Quando não há competição as semanas têm cerca de 37 horas de trabalho, quando há fica com mais dez horas para levar a vida de qualquer adulto da mesma idade.
Ainda assim, o dia-a-dia é exigente: «Para mim um dia normal é acordar às 8h30, tomar o pequeno-almoço e sair para treinar. Começo com uma sessão de duas horas e meia de bicicleta, almoço e, se não tiver feito corrida depois da bicicleta, corro oito quilómetros a meio da tarde e a seguir entro na piscina para uma sessão de uma hora e meia/duas. Antes de ir para casa ainda faço trabalho de ginásio e de fisioterapia para recuperar.»
Os locais também são diversificados: corre na zona do Estádio Nacional, em Oeiras, ou em Belém, pedala na zona de Sintra e nada nas piscinas do Jamor.
Nadar é aquilo que mais gosta de fazer, mas é também a disciplina na qual sabe que tem de melhorar. «Por norma quando não se é tão bom, não se gosta tanto. Eu sou ao contrário. É a disciplina que mais gosto, mas na qual não estou tão à vontade», disse, acrescentando: «Sinto que na corrida também tenho de melhorar um pouco, mas menos do que na natação.»
Ou seja, apesar do que já conquistou, sabe que tem de melhorar e sabe qual é a «receita perfeita» para ser um triatleta ainda melhor: «Conseguir nadar no grupo da frente e pedalar com o mínimo de desgaste possível para conseguir ser mais rápido a correr.»
É com base nisso que tem trabalhado e que trabalha, todos os dias. Os resultados estão à vista.
Depois das últimas conquistas, João Pereira está de novo focado no Campeonato do Mundo, uma competição com dez provas e na qual as cinco melhores é que contam.
«Neste momento só tenho um resultado e faltam quatro provas para conseguir pontuar. Ou seja, vai ser um resto de Campeonato do Mundo muito arriscado no qual não vou poder cometer muitos erros», disse, admitindo: «Estou bastante penalizado, mas o objetivo é acabar sempre no top10.»
O passado recente ajuda à confiança, mas o mais distante também. Já em 2015 se adivinhava complicado e o benfiquista conseguiu terminar nos dez primeiros, depois de uma finalíssima de «má memória devido ao calor»: «Foi de todas, até hoje, a prova que mais me custou.»
«Não estava em forma, não estava nada bem mesmo, e precisava muito do resultado. A finalíssima é a dobrar, a que mais conta. Sofri muito, mas consegui. Psicologicamente não estava bem, fisicamente menos ainda e era daquelas provas em que não dava para encostar ou desistir. Ainda assim, terminei em nono lugar. Foi bom e deu para conseguir algumas posições no ranking. Acabei o campeonato em oitavo, foi bastante aceitável.»
Exigente consigo mesmo, João Pereira referiu por isso que «o objetivo da carreira passa por conseguir feitos de relevo, mas também conseguir ser regular»: «Ter uma carreira sólida e não com altos e baixos.»
É o que tem tentado fazer e espera continuar a fazer, sem pensar numa data para terminar: «Gosto bastante do triatlo, de desporto e do alto-rendimento. Comecei tarde e quando comecei não gostava de competir, mas cada vez gosto mais. Daqui a quatro anos vejo-me em Tóquio e a partir daí dependerá da minha performance e do meu rendimento.»
Em Tóquio quer mais e melhor do que no Rio: «Os JO são sempre um ponto alto e chave na carreira de um atleta de modalidades olímpicas. Não é que pense já e diariamente neles, mas claro que o trabalho diário se faz por um objetivo e o que quero é fazer melhor do que nos primeiros.»
Mas nem só de competição se faz a vida de João Pereira na modalidade. O benfiquista namora com a também triatleta do Benfica Melanie Santos, promessa de 21 anos.
Uma relação saudável, nada competitiva e que acaba por ser uma mais-valia no triatlo e na vida. «Temos a sorte de estarmos a fazer o circuito mundial e por isso passamos o ano juntos. Viajamos juntos, partilhamos quarto, passeamos e temos sempre o apoio um do outro. Não é só triatlo, também namoramos. Não nos podemos queixar», disse a sorrir.
Tecendo vários elogios à namorada, João Pereira disse que Melanie Santos conseguirá nos próximos anos destacar-se mais do que ele até este momento: «Ela é mais nova e tem bastante potencial. No futuro conseguirá ter os meus resultados, ou melhores.»
«Ela é mais relaxada, mais descontraída, e acho que ganha com isso. Já quanto a disciplina, rigor e método eu sou mais focado. Tento passar-lhe a minha experiência e o meu know-how», justificou, dizendo a brincar que com o melhor dos dois se conseguiria fazer «certamente um super-atleta».

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